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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Há coisas em minha vida

O Menino e o Coelho - Henry Raeburn

Há coisas em minha vida
Que são totalmente questionáveis,
Mas outras
De uma ponderação
Que beiram filosofia.
Versos tenho feito,
Uns razoáveis, outros nem tanto.
São dizeres,
São todos meus seres
E muitos não.
Uns razão,
Outros utopia,
Como se meus sonhos não sejam
Tão importante quanto
Minhas todas e mais severas elucubrações.
O meu mais reto pensamento
Fala de horas,
Essas todas vividas
E de todos os desejos.
Na praça o pipoqueiro
De gesto leve e sorridente
Serve a criança que já fui.
Tão somente memórias,
Talvez mesmo delírios de um mundo de fantasia.
Eu vejo o menino,
Esse todo que fui,
Busco a ele dentro de mim,
Queria que ele
Não tivesse jamais fim.
O que busco?
O menino caminha
Ainda em alguma estrada
Com seu pacote de pipoca.
Assim, alegre e sorridente,
Como se o mundo fosse esse simples prazer.
Por outro lado, o homem que foi menino,
De tal forma se angustia,
Vive sem viver,
Pois o que possa ser
Mais importante em todo o mundo,
Quiçá no Universo,
Do que simplesmente
Um pacote de pipoca?
Meramente isso,
Juízo do homem,
Essência do menino.
Como posso amá-lo menos,
Tamanha a sua simplicidade,
Tamanho o desejo por pipocas.
O menino vai,
Assim caminhando,
Meio que dançando pela estrada da vida.
Vai deixando cá,
Uma trilha de muitas feridas.
Porém, ainda quero vê-lo novamente
Com seu pequeno pacote,
Onde cabem as maiores delícias do mundo.

S. Quimas

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Quem sabe amanhã não seja outro dia?



Quem sabe amanhã
Não seja outro dia?
Quem sabe?
Quem sabe hoje,
Este dia seja tudo?
Quem sabe?
Nossa mente divaga...
Tudo o que aprendemos,
Todo nosso pensamento,
É apenas incerteza.
Diz-me aí, o que te resta?
Quero resposta honesta.
Resta-te apenas este momento,
O caldo do espaço-tempo.
Aproveita e goza.
Goza assim como a flor que surgi
E não sabe o mundo.
Sabe apenas o efêmero.
Talvez a flor seja inconsciente,
Mas não se atribule,
Nasce.
Não busque seduzir, não.
Apenas vem à existência.
Quantas flores surgiram e feneceram?
Milhões.
Pior os grilhões,
Que nos fazem
Jamais nascer.
Não porque estejamos aqui,
Que sejamos vivos.
Quem repete sonhos
É apenas clichê.
Caminho nas sombras,
No delírio eterno de mim mesmo,
Mas caminho,
Não me acovardo perante
À toda minha imensa insuficiência.
De mim não sei.
Se sei, são pelas contas que chegam.
Ah! Essas são fatuais.
Se vivo, devo,
Somente por viver.
A humanidade é estulta,
Não compreende o que é viver.
Abraça modelos,
Se enquadra.
Caminho lá, pueril,
Naquela estrada outra.
Aquela que faz sonho.
Por tal me condenam.
A minha pena?
Ser-me.
Não que eu seja exemplo.
Sou dentre muitos,
O mais entre todos,
Meramente um pária.
Pior, ainda esbravejo.
A poesia que me inunda
E me inunda de tal maneira,
Que eu mesmo não
A restrinjo em mim.
Tenho o despudor
De lançá-la no tempo,
Tenho a lascívia
De fazê-la pecado imenso,
Praticado a todos.
Não há a menor modéstia em mim.
Me creio poeta.
Talvez possa ser meio pueril,
Como a criança que fez uma descoberta.
Possa ser que eu não tenha acordado
De toda a minha infância
E assim prossiga um sonâmbulo.
Faço poemas indigestos como este.
Que dúvidas têm
Que não são apenas delírios.
Não sou...
E nem serei no mínimo razoável.
Cachorro que fuça lixo,
Um deplorável,
Mas preciso.
Tantas vidas eu tive,
Porém ainda estou aqui agora.
Flor que nasce,
Para num outro instante,
Apenas ir embora.

S. Quimas

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Feliz



Pensei. Pensei, mas pensei tanto,
Que tudo o que pensei foi só pensamento.
Sonhei, quando menino,
Todos os sonhos do mundo
E acordar deles era felicidade.
Vivia vida de menino,
Sempre sonho, sempre feliz.
Algo abstrato,
Entre o verde das matas que adentrava
E o vermelho de um pôr do sol.
Era simples ser feliz,
Algo como um pão na manteiga
E um bom café com leite.
Eu gozava com isso.
Broa de banana no forno à lenha,
E eu e meus primos
A chafurdar a mata a procura de galhos
Para alimentar a fornalha.
O milho do paiol,
A banana colhida no terreno
(de vez!).
Simples, simplesmente assim.
Não era pobre, não mesmo.
Fui feliz.

S. Quimas

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Há uma coisa em mim que é fumo

Renascer: Amanhecer no Pinheiral - S. Quimas


Há uma coisa em mim que é fumo,
Uma lânguida oposição ao caminhar,
Uma doçura, razão para a total inércia.
É como um pão doce na vitrine de uma padaria,
Só gula, imergir no prazer do sabor,
Fazer-me render a ele totalmente.
Não sei o que digo, pois a loucura me domina
E meus versos não são mais razoáveis.
Sou vizinho da morte
E com ela tenho boas relações,
Quase aconchego.
Nada há de mórbido em meu pensamento,
Inevitável.
A bruma que escorre pela montanha,
Como leite que vasa pela teta da vaca
É branco.
Transformo em poesia
O texto que não replico em meu viver.
Nada, absolutamente nada
Tem importância alguma.
Mistério em mim mesmo,
Construções lúdicas de meu pensamento.
Nada a se entender,
Pois os versos fluem
E não há inteligência neles.
Não procuram sobreviver,
Que sejam momentos de tempo nenhum,
Mas totalmente meus.
Que não tenham significado,
Que sejam apenas versos
De um tempo não vivido,
Mas que calem em algum coração,
Como aquela canção que se repete,
Aquele que não abandona a mente,
Quando se acorda e quando o dia se finda,
Que seja, apenas verso
E nenhuma poesia.

S. Quimas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Eu não quero mais saber de coisas

Caravaggio - A cabeça da Medusa


Eu não quero mais saber de coisas
E nem mais lutar por causas,
Quero saber de mim,
Enquanto há tempo de me viver.
Aprofundou-se em meu ser
Um egoísmo que corre atrás do prejuízo
De não ter-me vivido.
Meu pensamento é navalha
Que esquarteja os restos que sobraram
Do arremedo de mim mesmo que fui.
Podia tanto... E nada.
A pior piada?
Justo, convivo para sempre comigo mesmo.
E sempre é quando?
Imponderabilidade temporal.
Deixo versos, rastros turvos
Das desigualdades de minha alma.
Dos arrependimentos, o único que significa algo,
É ter me revelado,
Ter mostrado meu lado humano
Frente às víboras que espreitam
Na escuridão de meus dias.
Chega... Basta.
Sou um buraco negro sorvendo a luz,
Um poente a caminho da escuridão.
Que seja breve, que se alonguem minhas pernas,
Que o caminho finde.
Não há mais flores,
Só a minha cegueira.


S. Quimas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Não se ponha palavras na boca de incerteza



Não se ponha palavras
Na boca de incertezas
E, jamais, da confiança,
De nenhum absoluto.
Palavras são imponderabilidades,
Instrumento de capeta
Na construção do pensamento,
Matéria imponderável,
Volátil como nuvem.
Imagem diáfana
De um tão somente
Eterno agora.
Não há ciência,
Jamais houve filosofia,
Não há senão proposições
E assim nasceram os sofismas.
Tudo se move,
Essa a Lei — ou não.
A dúvida move,
Faz da vida rebuliço, busca.
O resto é arapuca dos que se renderam.
Não há preciosidade,
Há o quê cabe no momento:
Seja veneno,
Seja alimento,
Seja poesia apenas.
Razão como flor
E como flor expressão completa,
Com todos seus pseudos nomes,
De tudo que fingimos importância,
Mas que se leve da vida,
Apenas... Ainda... Admiração.

S. Quimas

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Só há uma coisa irreversível na vida

Sri Krishna


Só há uma coisa irreversível na vida: a impotência autoimposta. Limites tem quem se julga tê-los. Não que não os devamos tê-los, faz parte do alijamento à psicopatia. Contudo, nos privarmos de ações éticas é nos omitirmos à vida. Viemos para nos resolver como ser e não para nos consumir em controvérsias ou covardias.
Todos, cada um, parte de um ponto, mas no final trilhamos a mesma estrada, a da eterna dúvida.
Se eu ou você somos mais dotados, estendamos as mãos e não os punhos em riste. Cabe-nos amparar e não recrudescer o abismo através de atitudes radicais, seja de omissão, seja de severidade.
Tolo é o pensamento de se constatar sábio, tolo é o pensamento de se achar limitado. Com esforço o ignorante sobe a montanha, com esforço o sábio a desce.

S. Quimas

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Toda bússola aponta para o norte



Toda a bússola
Aponta para o norte,
Mas a da minha vida
Não.
Sou barco incerto,
De rota imprecisa,
Que se arremessa ao mar
Tendo por destino
Os sonhos
E todas as fantasias.

Meu alimento
É a poesia
E se vazarem minha carne,
Verão que em minhas artérias
O que flui não é
Sangue,
Mas sensibilidade.

Meu pensamento
Pensa o mundo inteiro
E tudo o mais
Que caiba
Em meu coração,
Que é do tamanho
Do Universo todo
E muito mais além.

A minha dor
É imensa,
Mas maior ainda
É a minha capacidade
De amar,
De me entregar
Por completo
A tudo o que fizer
Morada em minha alma.

Sou a cruz
E o caminho ao Calvário,
Os ombros que a carrega
E as mãos que suplicam,
E aquelas que amparam
Na queda.
Sou o algoz
E o imolado,
O Cristo
E o crucificador.

Enfim, sou Tudo,
Sou poeta.

S. Quimas

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Eu parto da ausência de mim mesmo

Touch and Go, to Laugh or No - Sophie Gengembre Anderson


Eu parto da ausência de mim mesmo,
De tudo o que não fui e de tudo o que sou
E sendo o que sou, e porque, jamais serei,
Mas em mim há todas as possibilidades.
Ah, que destino o do poeta! Nenhum.
Não há rota, nem carta desenhada que o revele.
O poeta vive e cada dia é uma incógnita.
Sabe-se lá a poesia, sabem-se lá os versos.
Tudo é bruma, toda possibilidade.
Não pertenço à minha encarnação,
A que pertenço? Não sei precisar.
Acho que à nada e a tudo ao mesmo tempo.
Muitas das minhas falas são desconexas,
Puro delírio, coisa da minha cabeça,
Mas que se preste atenção, verdades.
Digo o que jamais aprendi e além...
Porque a verdade não se aprende.
A verdade está marcada a fogo no coração.
E a razão, dirão os cientistas?
Ora, à ciência cabe explicar,
À poesia só cabe encantamento,
Cabe enlevar, a transcendência.
Poesia nenhuma jamais quis
Ser para o mundo ciência,
A poesia só se faz para ser sentimento.
Um único... Amor que se projeta
Além do pensamento,
Luz que se espraia, onde as trevas vingam,
Amores impossíveis e paixão,
Os mais loucos, alucinados, terminais.
A poesia é luz,
Luz que vem e nada mais.
Responda-me, tu que lê estes versos,
Donde a dor é motivo de beleza?
Mas, mesmo da maior tristeza o é.
A poesia é assim,
Um poço sem fim.

S. Quimas

terça-feira, 24 de junho de 2014

Em vão eu busco a poesia perfeita

Paisagem da Vestfália


Em vão eu busco a poesia perfeita,
Aquela que enlaçará o teu coração
Nessa toda paixão que por ti sinto.
Minha alma clama a tua presença,
Pois já minhas horas são todas tuas
E a tua recordação, o meu pensamento.
Se não podes ouvir o som da minha voz,
Então, que o acaso faça com que leias
Estes versos de amor que para ti fiz.
Quem sabe? Possas assim acreditar
Que o amor, por mais distante seja,
É ponte que liga uma a outra estrada
Onde poderemos juntos caminhar.
E, assim, lá no fim do caminho,
Aconchegar-te-ei em meus braços
E dar-te-ei, com carinho, um beijo.

S. Quimas


terça-feira, 27 de setembro de 2011

A virtude do silêncio


S. Quimas - Madrigal - Óleo sobre tela

As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.
Leonardo da Vinci

Dentre todas as grandes virtudes, uma delas se destaca, o saber silenciar.
É no silêncio que as preces mais fervorosas clamam pela ajuda Daquele que não precisa de sons para compreender a total extensão de nossas necessidades.
É também no silêncio que o amor se revela puro sentimento, ato da mais profunda comunhão espiritual entre dois seres.
Quando se faz silêncio no pensamento, passamos a captar as vozes que nos cercam e aquelas que habitam no profundo de nossa alma, e somos capazes ao ouvi-las de compor músicas e poemas celestiais, de assimilarmos ideias que transformarão muitas vezes a nós mesmos e muitas outras vezes tudo ao nosso redor e, assim, imersos em silêncio pessoal, podemos enfim perceber a riqueza de todo o universo ao nosso redor e dentro de nós mesmos.
Quem sabe? Talvez cultivando com afinco a virtude do silêncio, possamos mesmo um dia, ouvir a canção que entoam as estrelas no firmamento.

Luz e paz.
S. Quimas


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