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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Hoje está frio

Sobre a ponte - Autor desconhecido


Hoje está frio,
Quisera outro clima.
Alguns se aconchegam,
Eu percorro vielas.
— Um trocado, senhor,
Para o pão e o café?
Melhor pedir para a cachaça.
Ao menos torpor reconfortaria,
Seria assim mais verdadeiro,
Soaria-me mais real.
Não que eu recomendaria vícios,
Não que completamente
De modo nenhum os tenha.
Atravesso a rua
E outro me pede.
A sociedade é desigual.
Culpa de quem?
Do que pede?
Não sei. Nada posso afirmar.
Na minha indigência
O meu princípio
É acolher.
Não que eu mesmo seja
Algo de excepcional,
Mas por saber
O quanto somos falíveis.
Vi homens e mulheres
Se abaterem
E se transformarem em nada,
Absolutamente nada,
Pois sempre foram
Mendigos de suas ilusões.
A grandeza de seus trajes requintados
Viraram farrapos de suas crenças
No poder absoluto
De suas pretensões.
Lá fora
A água passa sob a ponte.
Nela uma criança se olha,
Encantada com seu reflexo.
Além dela o céu
E ela se vê
Despida, completamente nua,
De tudo o que a cerca,
Porém trajada, vestida por completa,
De todos os sonhos deste mundo.

S. Quimas

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Feliz



Pensei. Pensei, mas pensei tanto,
Que tudo o que pensei foi só pensamento.
Sonhei, quando menino,
Todos os sonhos do mundo
E acordar deles era felicidade.
Vivia vida de menino,
Sempre sonho, sempre feliz.
Algo abstrato,
Entre o verde das matas que adentrava
E o vermelho de um pôr do sol.
Era simples ser feliz,
Algo como um pão na manteiga
E um bom café com leite.
Eu gozava com isso.
Broa de banana no forno à lenha,
E eu e meus primos
A chafurdar a mata a procura de galhos
Para alimentar a fornalha.
O milho do paiol,
A banana colhida no terreno
(de vez!).
Simples, simplesmente assim.
Não era pobre, não mesmo.
Fui feliz.

S. Quimas

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Os homens precisam de sonhos

Arte: Anton von Werner


Os homens precisam de sonhos
E eu de mais nenhum.
Tenho a poesia,
Esta infame sedutora,
Que me consome por completo.
Quem tem tão fogosa amante,
Não precisa de mais nada,
Nem do pão, nem do abrigo,
De nada.
Sofre o corpo, faz-se versos.
Se a alma, outros tantos.
E tudo é razão de poesia.
A menina que brinca com sua boneca?
Poesia.
O vento que varre a poeira do chão?
Poesia.
A boca que encarna mil beijos?
Poesia.
Todos os amores e todos os desejos?
Poesia.
E ela, só não haverá, poesia,
Para uma alma de tudo vazia.

S. Quimas

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Nada mais tenho a te dizer, amor

O Moinho d'Água - William Turner of Oxford


Nada mais tenho a te dizer, amor,
Que já não tenha dito antes.
Minha poesia tornou-se monótona,
Pois fala repetidamente a mesma coisa.
É como um moinho cuja água
Só faz mover a mó,
Todo dia, hora após hora, sempre.
E na pedra a mesma semente,
A mesma farinha, que fará o mesmo pão,
Que alimentará os mesmos famintos.
Não sei por que insisto em meus versos...
Talvez desespero por tu não os ler.
Ah, amor! Pior que a cegueira tua
É essa tua ausência,
Essa tua indiferença aos meus clamores.
Por isso continuo teimosamente escrevendo-te,
Para que um dia chegue a ti
O pão terno da minha poesia
E com ele, assim, possas saciar
A tua fome de eterno amor.

S. Quimas