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sábado, 16 de maio de 2015

Não tenho mais destino

Salvado Dali - Busto Invisível de Voltaire


Não tenho mais destino
Que não seja caminhar.
Quem caminha comigo
Que venha como eu:
Despido e sem bússola,
Sem norte e rumo,
Que venha,
Porque venha apenas,
Pelo prazer de percorrer paisagens.
Aqui e ali,
Sonhos.
Nada mais.
Ah, agora! Ah, além.
Dia que passa,
Noite que vem.
Apenas caminhante,
Dobro nas estrada,
As margens são meu leito.
Pouso sobre mim apenas.
O que é?
Não sei.
O que será?
Não sei.
O que sei que amanhã
De novo estarei a caminhar.
Um pouco nessa estrada,
De repente em outra.
Minha bússola gira,
Não tenho norte,
Com sorte
Ainda de vida
Viverei.

S. Quimas

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Tenho lembrado tanta coisa

Salvador Dali - Bebê Mapa do Mundo


Tenho lembrado tanta coisa
E esquecido de mim mesmo.
A noite passa
E meu sol não acorda
Assim tão cedo.
Sua luz é fugidia,
Não aquece.
Entreolho através das brumas
De minhas desilusões todas,
Buscando motivo de seguir.
Não sei, não mesmo.
Hoje o que me cala profundo
É sonho, sempre foi.
Há horas que tenho vontade,
Uma imensa, descomunal vontade
De apenas me calar,
Não declarar mais nada,
Não caminhar e parar
Em meio à estrada.
Que me condenem os maiores,
Quem jamais teve dúvida,
Que não foi bafejado por aflição.
A canção toca lá longe,
Não sei o que diz
E nem me interessam os versos.
Sigo a melodia,
Nela me deixo embalar.
Não sei da poesia,
Nem do discorrer de notas.
Porém se abrem portas,
Imensas escancaradas.
De uma virtude imensa,
Feito estrume que alimenta planta,
Tamanho desespero de minha alma.
Calma, digo a mim,
Hás de seguir,
Não agora,
Depois.
Os versos se derramam
E chamam isso de poesia,
De iluminação
E privilégio.
Chamo de sacrilégio,
Aviltamento de minha alma.
Calmo, fica calmo,
Digo a mim.
Não te tomes
Pela intensidade imensa
De sentimentos
Que já nem sabes
Que teus os são.
Duas crianças jogam na rua
Um jogo que não sei qual.
São de hoje
E eu não consigo ressuscitar nelas
A criança que fui.
São outras e observo.
Não com aflição
Por serem assim,
O que são
E não com reprimendas pela que fui.
São outras
E nunca as que serei.
Serei? Sei lá!
Possa ser que em outra vida,
Mas não nessa.
Nessa me consumo
Adulto que sou.
Ainda assim, criança.
A infância não me abandona,
Mas resta pouco.
Não que eu seja descrente totalmente
De toda a virtude. Não.
A poesia é imensa,
Não sou mais menino,
Não sou velho,
Não pertenço a tempo nenhum.
Assim me defino:
Singularidade.
Assim,
A bem da verdade,
Sem definição.

S. Quimas

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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Não, não sou






























Não, não sou,
Anjo que tem asas,
Mas caminhante da estrada.
Arremedo de poeta,
Ser de visões tantas,
Mas não profeta,
Mais para caboclo
Que tira do rio areia.
Não discípulo
Num quadro de Santa Ceia.
Ridículo em rimas,
Perdoe-me as estrofes,
Pretensão não tenho a ser
Nada que comigo
Não tenha a ver.
Português, minha língua,
É uma descomposição,
Não há nada em mim
Que seja lógica,
Menos ainda razão.
Sou apenas o que sou,
Um revirar de vermes.
Que a luz seja amena
E simplesmente me deixe sobreviver.
Quem sabe um dia
Louve a todos vós?
De poema que soe belo,
Algo que valha.
Por agora, cresto na fornalha
De todo o meu ser.
Já não basta?
Ser que se debate na vida,
Chagas, feridas,
E assim segue e nada mais....
Inspiração, e nenhuma razão.
Canção? A pior de todas.
Risos e masmorras.
A vós, poesia.


S. Quimas

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Só há uma coisa irreversível na vida

Sri Krishna


Só há uma coisa irreversível na vida: a impotência autoimposta. Limites tem quem se julga tê-los. Não que não os devamos tê-los, faz parte do alijamento à psicopatia. Contudo, nos privarmos de ações éticas é nos omitirmos à vida. Viemos para nos resolver como ser e não para nos consumir em controvérsias ou covardias.
Todos, cada um, parte de um ponto, mas no final trilhamos a mesma estrada, a da eterna dúvida.
Se eu ou você somos mais dotados, estendamos as mãos e não os punhos em riste. Cabe-nos amparar e não recrudescer o abismo através de atitudes radicais, seja de omissão, seja de severidade.
Tolo é o pensamento de se constatar sábio, tolo é o pensamento de se achar limitado. Com esforço o ignorante sobe a montanha, com esforço o sábio a desce.

S. Quimas

domingo, 29 de junho de 2014

Não me creia poeta

Arte: Juan Cossio


Não me creia poeta,
Só psicografo o meu destino.
Ele fala assim tão intenso em minha alma,
Que dificilmente não o daria voz.
Quantas vidas vivi independente do teu ceticismo?
Muitas, não sei quantas. Vivo todas do mundo.
Queria só a minha.
Não sei se a vida é dor exatamente,
Mas a sinto, assim, completamente.
Onde a alegria? Os viços da primavera?
Sei lá... Não sei de mais nada.
A vida? Estrada, caminho...
E eu sozinho e é coisa demasiada.

S. Quimas

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A estrada nua se abre para o abraço da floresta

Rebanho na Floresta - Ivan Shishkin

A estrada nua se abre para o abraço da floresta,
Que a recebe feito a amante que dócil se entrega.
A estrada segue serpenteando, penetrando-lhe
O seio, descortinando seus mais íntimos mistérios.
Pela estrada passa toda a gente: os que buscam algo
E todos aqueles que nada, pois há muito acharam.
Há os que busquem sonhos perdidos na paisagem,
Outros, aturdidos e desesperados, só encontram
Nas formas que se perdem nas sombras, pesadelos.
A estrada nada tem de especial, nem a floresta,
São apenas uma estrada e uma floresta comuns.
Ah! Mas há os olhos que produzem encantamentos,
Que veem onde nada há para ser visto de especial
Ou os que se enceguecem para tudo aquilo que é raro.
Há também os ouvidos que não se apercebem das aves
E de todo o seu canto mavioso e do farfalhar das folhas
Lambidas pelo vento, que também varre a poeira
Semeada na estrada que traça caminho pelas árvores.
Mas há também os ouvidos que ouvem as fadas,
Esses mais do que ouvem, pois escutam o inaudível.
Passa muita coisa pela estrada a todo o tempo,
Pela estrada passa mesmo de ti toda a minha
Inteira e infinita saudade. Na estrada passa
Mas não em meu coração.

S. Quimas