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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Minha vida é um delírio




Minha vida é um delírio,
Encarnação do mundo inteiro,
Absurdo de tão imensa.
Bebo das águas de todas as eras,
Flutuo no espaço infinito
De todas as minhas lembranças
E daquelas outras todas alheias às minhas.
Vivo a minha vida
E a de todos os outros homens
E a da natureza por completo.
Tudo em mim é transcendental,
Espetáculo contínuo
Que extrapola o tempo,
Rompe limite de existência.
Numa das mãos trago as chagas do profeta,
Na outra um ramo de flores.
A vida me traz rugas na face
E cicatrizes na alma.
Sou o ancião do mundo
E aquele que agora renasce à luz.
Sou dentre todos o real bandido,
Pois da imortalidade o cálice furtei
E o sorvo às goladas
E dele derramo... Poesia.
Sou poeta...
Pai de canções,
Filho de rimas incertas,
Mãe de partos muitas vezes dolorosos.
Tudo em mim é impreciso,
Instável como o tempo,
Fugaz como as nuvens,
Rodopiante como o vento,
Giro de pedras num caleidoscópio.
De mim se espera que eu seja
Algo que não se define.
Assim é: mutação por completo,
Rio que escoa em jamais repetidas águas,
Amanhecer e céu estrelado.
Tudo sou.
E, por sê-lo completamente,
Também sou o nada,
O silêncio, a ausência,
O próprio não ser.
Em mim tudo se cria
E tudo se desconstrói.
Sou um deus e o mais vil mortal.
Sou o que sou
E também não.
Sou poeta.

S. Quimas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Abandono o tempo

Franz Roubaud - Cossaccos num Rio da Montanha


Abandono o tempo
E todas as medidas,
Eis que mergulho enfim na eternidade.
Tudo o que pensamos são razões,
Eu mesmo renego a angústia
De viver cercado de soluções.
A vida é sempre pergunta,
De muitas respostas poucas,
Há de se abandonar tal ilusão,
Porém há de se buscar
Sempre respostas.
Estas que nos levam a outras tantas...
Questões.
A vida é simples:
Apenas um isso aí!
Viver.
Não há imensa filosofia
Que não seja apenas viver.
A única e imensa certeza
E aquela que nos toma e transtorna. A morte.
A vida é sorte
E a morte circunstância.
Quando caminhamos
Há os tropeços
E a absoluta incerteza de tudo,
Mas de tudo mesmo,
Pois que tudo
É imensamente imponderável.
Resta a criança em nós.
Ela não pensa no tempo.
Suas preocupações são quimeras.
Não questiona o alimento
Que deveras a alimenta.
A criança é o absoluto agora.
Constrói-se pela presença
E não pela imponderabilidade.
Lição a ser aprendida.
Dizemos de consciência
E, adultos, pouco sabemos disso.
Contudo, caminhemos .
Melhor os pés que andam
Do que a mente
Que não enxerga mais caminho,
Que se satisfez
Com a solução de seus limites
E não busca mais nada.
A quem se rende
Não há mais estrada,
Pois perdeu seu caminho,
Si mesmo,
O infinito.
Desconhece-se.
Tudo que é normalmente aceito
Não nos identifica.
Prefiro a brisa
E mesmo o vento imenso.
Melhor tudo que me transtorna
Do que aquilo que torne
Simplesmente conformado.
Meu maior modelo são as nuvens.
Estas caleidoscópios celestes,
Sempre em transformação,
Únicas a todos os momentos.
Permaneço silente e contemplante.
Caminho onde
Flores brotam no asfalto.

S. Quimas

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sou um bastardo do mundo

Bob Marley - Por S. Quimas


Sou um bastardo do mundo,
Criatura cuja quintessência,
É ser como um ovo estrelado.
Meus dizeres são somente controvérsias,
Algo que não se declara em conversas.
Sabia eu maduro, mas fruto apodrecido,
Pois que renunciei ao mundo
E a todas as suas ilusões.
Não me agradam os fatos,
Esses ditos nas notícias.
São sempre eles tudo os que todos querem ouvir,
Mas, de fato, não o “tudo”
De todo o existir.
Como poeta, “poesio”.
Numa poética sem fim.
Não sou sério,
Possa sê-lo... ou não.
Caminho de dores,
Amores, canções.
Como poeta sofro, vivo.
Se é que existência é viver.
Que é viver?
Aqui? Renúncia.
Deixar-se esvair.
Quem conhece o Céu
Não se entrega à glória do mundo.
Vive apenas tateando.
Palmo a palmo
As dúvidas das horas,
Dos momentos infindos
Das contumazes incertezas.
Não busca,
Pois seu maior encontro
É consigo mesmo.
Ah! O que vejo?
Quem saberá?
Eu, ou outro eu.
O que sou...
Nenhum?
Porém, tudo o que me resta.
Rompo a aurora.
O sol tarda.
No rosto do céu
Só nuvens.
O que me consola são lembranças.
Estas de um tempo impossível,
Um tempo nenhum,
Aquele que não vivi.
Contudo, que vivo.
Não sei. Talvez precinta.
Eu e a poesia. Vida e morte.
Algo imensamente assim.
Passado, presente, futuro...
Apenas vida:
Ontem, hoje, amanhã...
Um sem fim.
Eu aqui pego a caneta
E apenas faço versos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Trem da Vida

Trem Maria-Fumaça

Apita a curva mesmo,
Pois por ali já há muito
Não passa trem.
Nem mesmo há mais os trilhos,
Só pedras e capim.
Mas, mesmo assim,
A curva apita
E por ela passam
Dezenas de recordações.
São os vagões da memória
Desfilando em seu cortejo.
— Piuí! Piuí!
E tudo então é coberto
Pela fumaça do tempo...


S. Quimas

sábado, 25 de julho de 2015

Canto a canção do mundo



Canto a canção do mundo,
A canção da dor de quem grita em meio às trevas.
O clamor dos renegados,
Dos espíritos exilados de estrelas distantes,
Muito além do pensamento;
Da visão que se cega à nossa miserável condição,
À toda a agonia a que nos submetemos em nosso degredo.
Nasceu-me a Luz e minha voz não se esgota no clamor
E hei de estender minhas mãos enquanto uma alma houver
Na escuridão traiçoeira pedindo ajuda.
Sou aquele que permanece fiel até o fim das suas forças,
Até que se esgote um fio de vida.
Sou a aurora não vista, servo de todos,
Um daqueles que vieram para abraçar àqueles de boa vontade.
Nunca fui um abençoado, mas abençoado sempre com Vida,
Vida que está acima da vida, de todas as causas menores.
Não sou existente, sou impermanente,
Lacaio de toda a esperança que jamais se rende.
Sou poeta desse mundo tão desigual, tão vil, tão falacioso.
Sou sua voz e testemunha de sua pequenez,
De todas as suas mais profundas misérias e iniquidades.
Mas, também sou aquele que ilumina,
Que do amor fala, não como inatingível, porém vivido,
Palpável como a brisa que roça arrepiando a pele.
Do amor eu falo, contudo não por sua constância em tê-lo,
Porém de tê-lo em verdade profundamente sentido.
Não preciso de testemunhas que corroborem com meu dito,
O que sinto pertence a mim, e a tudo com que compartilho.
Em minha poesia eu não falo mentiras — até omito para que o seu
Tremendo peso não seja como o soco de um boxeador.
Não há inverdades nas minhas palavras,
Só há total sentimento, só há o grito que grito, nada mais.
Não há imitação de estilos, ou muita concisão em minhas palavras.
Minha poesia é minha. Nunca tive ídolos.
Não perco tempo entregando minha alma
Para aquilo que é passageiro.
Sou parte de mim mesmo e da minha totalidade.
Não preciso de deuses que não são aquilo que eu seja em mim mesmo.
Tenho dito coisas que o mundo queria dizer, mas não tinha virilidade.
Não porque seja eu Homem, mas porque havia de dizer e mais nada.
Outras digo e que não soam bem ao ouvido de uns.
O que posso fazer? Se é que isso me ocupa de algum modo.
O que tenho a dizer, digo. Exatamente, mais nada.
Não para aliviar a carga imensa de minha alma,
Mas porque tenho que dizer. Uma imposição do meu espírito.
Por que faço poesia? Sei lá. Vem... Só isso.
Nem sei se o que faço é verdadeiramente poesia.
É esse jorro, uma profusão de palavras que me tomam por completo.
Não espere que eu tenha domínio sobre isso,
Sou o meio, não a causa, e não o fim.
Você sabe o que é sentir o peso da carga do mundo sobre si?
Não? Então seja poeta e saberá...
Saberá nos mais pequenos e ínfimos detalhes.
Terás momentos de beleza incomensurável
E outros de agonia dilacerante.
Assim é o poeta, alguém que vive no limbo.
Acho que vou terminar este poema,
Sinto-me esgotado.
Não pelo esforço de escrevê-lo. Amo poetizar.
Contudo, por que devo fazê-lo?
Para que todas as minhas palavras
Em uma só coisa se justifique:
Amor, amar, simplesmente.
Nada mais a alegar,
Só a lágrima que escorre pela minha face...

S. Quimas

sábado, 11 de abril de 2015

Tem um doce silêncio em teus gestos

Sophia Loren



Tem um doce silêncio em teus gestos,
Não são música, se dela são, são pausa,
Interregno de execução, lapso na melodia,
Suspensão e desejo de prosseguir, atração.
São notas não descritas, símbolo declarado
Da ânsia que por completo me invade,
Sol que prenuncia em nascer
Numa aurora que talvez viverei, ou não.
Renúncia à verdade do meu tempo,
Eterna possibilidade.

S. Quimas

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Há uma coisa em mim que é fumo

Renascer: Amanhecer no Pinheiral - S. Quimas


Há uma coisa em mim que é fumo,
Uma lânguida oposição ao caminhar,
Uma doçura, razão para a total inércia.
É como um pão doce na vitrine de uma padaria,
Só gula, imergir no prazer do sabor,
Fazer-me render a ele totalmente.
Não sei o que digo, pois a loucura me domina
E meus versos não são mais razoáveis.
Sou vizinho da morte
E com ela tenho boas relações,
Quase aconchego.
Nada há de mórbido em meu pensamento,
Inevitável.
A bruma que escorre pela montanha,
Como leite que vasa pela teta da vaca
É branco.
Transformo em poesia
O texto que não replico em meu viver.
Nada, absolutamente nada
Tem importância alguma.
Mistério em mim mesmo,
Construções lúdicas de meu pensamento.
Nada a se entender,
Pois os versos fluem
E não há inteligência neles.
Não procuram sobreviver,
Que sejam momentos de tempo nenhum,
Mas totalmente meus.
Que não tenham significado,
Que sejam apenas versos
De um tempo não vivido,
Mas que calem em algum coração,
Como aquela canção que se repete,
Aquele que não abandona a mente,
Quando se acorda e quando o dia se finda,
Que seja, apenas verso
E nenhuma poesia.

S. Quimas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Algo em mim é renúncia



Leonardo Da Vinci - O homem vitruviano

Algo em mim é renúncia,
Outro desejo incontido de poder.
Algo me mata,
Outro me faz viver.
Todos algos me fazem ser o que sou,
Outros me invadem deformando.
Como estátua de cera,
Depositada em um museu,
Represento algo,
Mas vejo a angústia do não-ser.
Na arte há sonho,
Porém também padecimento,
Algo de fome, jamais satisfeita,
Alimento que não sustenta estômago,
Vilania de não conformidade.
Algo em mim busca,
Outra se paralisa completamente
E ainda assim se move
Na imponderável falta de gravidade
De uma inexistente e absoluta
Falta de toda atração.
Existe em mim respostas,
Contudo as dúvidas lhes superam.
Vou assim seguindo, controvérsia.
Não sei a felicidade anunciada
Pelas propagações de benesses.
Não há em mim religião,
Esperança de promessas,
Há o que vivo,
Eterno rascunho,
Um traçar planos,
Féretro de inconclusos devires.
Talvez seja isso
O que de fato me alimenta e me sustem.
Não sou nada
E ao mesmo tempo absoluto.
O que passa é extinto,
Sou mais absinto e abismo.
A queda é fácil,
Mas no voo me sustenho,
Pois de tudo em mim desdenho.
Na poesia a rima incerta,
Como toda a minha vida é.
Não há esperança,
Sou o que sou,
Um sempre vir a ser.

S. Quimas

Obrigado por sua  visita. Visite a minha página de arte no Facebook e conheça a minha pintura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Tempo



Muitos existem, mas raros vivem. Oscar Wilde (Algo mais ou menos assim.)


O tempo passa. E tu te apercebeste de cada segundo?
Estiveste de fato consciente, presente, em todos?
Medonho viver a vida. Fácil a alienação de nos abandonarmos às crenças que nos desconstrói como Ser, pois exteriores são.
Não somos doutrinas e filosofias.
Somos nossas próprias e individuais experiências.
Aí há verdade. Tudo mais é ilusório.
Cabe-nos julgamento do que nos serve. Do restante te liberta.
Não há que carregar carga alheia, senão a ti mesmo.
Viva a Luz de teus dias, que tua aurora seja o nascer de tua alma, brilhante como teu próprio espírito.
Lamento por quem não tenha existido e abraço a todos quê vivos.
Há falácia na crença da morte e na natureza da vida. Quem se conhece sabe, não há eternidade enquanto crença, mas consciência na infinitude. Ser.
Quem sabe, sabe também do que falo.

S. Quimas

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sábado, 29 de novembro de 2014

Já não há tempo



Já não há tempo
Para realidades alheias,
Pois minha vida se estrangula
Para viver ainda meus próprios sonhos.
Não há mais paciência em mim
Para quem não devaneia
E trata a vida como coisa
Séria demais.
Não me permito mais
Abrir as janelas
E não cumprimentar o dia
E dizer ao Sol um “Bom dia!”
E a Deus, que seja o dia para todos abençoado.
Não há mais tempo para superficialismos,
Para inexatidões de opiniões,
Para tudo que contradiga beleza e amor.
Não há tempo
Para tempos sem música,
Sem arte, sem sentimento,
Para coisas em que não me envolva por completo.
Não há nenhum tempo em mim
Sem amor, pois meu todo tempo
É tempo de me apaixonar
E, assim, todo o meu tempo
É tempo de amar.

S. Quimas

domingo, 21 de setembro de 2014

Hoje não há poesia

Laelia Purpurata


Hoje não há poesia,
Não tem sonho, devaneio.
Hoje simplesmente o tempo passa
E faz escárnio da vida,
Aquela mínima, sem sentimentos
E ilusões, sem alma e delírios.
Hoje, hoje não há espírito
E o fôlego só mantém o corpo.
Quem sabe, amanhã haverá,
Mas hoje, hoje não.
Hoje os versos fogem, parecem coriscos,
Não há tempo para versos,
Não há para qualquer mínima rima.
Hoje? Hoje não há.
Hoje é um dia seco e estéril,
Como um deserto,
Um amontoado de areias e pedras
Crestado pelo sol abrasador
Que a tudo cresta e consome.
Assim é a luz, assim esse dia.
Um dia de surdez a qualquer inspiração,
Um nada fazer e apenas deixar-se estar,
Um tempo de nada,
Onde a areia escorre pela ampulheta
E a tempo algum marca,
Pois mesmo o tempo não deixa marcas,
Nada muda,
Tudo é como um lago, espelho perfeito
Sem que o vento lhe agite a superfície,
Sem nenhuma transformação.
É assim, nada mais.
Hoje não há poesia
E não sei realmente se amanhã haverá.
Sei de agora, desse ínfimo e exato momento,
Sei que poesia não há.
Penso na face escura da lua
E ao mesmo tempo, que me importa isso...
Nada.
Só sei que não há poesia agora,
Mas, quem sabe,
Poesia haverá.
Não sei quando,
Mas talvez minha alma seja laçada
Pelo raio de uma estrela qualquer
E em mim volte inspiração
E eu apenas declare em um verso
A grandeza de tudo isso,
Da vida e de toda visão,
Que me consuma na loucura,
No sonho e em todo devaneio,
E assim me dê,
E assim me vá.
E assim, apenas,
Me imole em poesia.

S. Quimas

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Foi apenas um sonho

Awol Erizku - Garota com um Pombo


Foi apenas um sonho,
Um momento de iluminação em minha alma,
Um risco de luz que rasgou minha mente,
Que escancarou as portas celestiais
E pude ver o que se passava no Paraíso.
Mas foi apenas isso,
Pois permaneço acorrentado,
Prisioneiro de minha carne,
Desfeito de minhas asas.
Não posso mais voar,
Sou anjo decaído arremessado ao chão,
Prostrado, imerso no pântano de minhas culpas.
Foi apenas um sonho,
A loucura de ter-te em meus braços,
De beijar-te a boca, de sentir tua carne,
De fazer-te minha, só minha.
Nem que por um frugal momento,
Queria pertencer-te e tu a mim somente
E nos darmos por inteiro,
E sermos uma única substância no amor.
Mas a vida é masmorra
De onde os meus gritos não são ouvidos,
Onde meus clamores se transubstanciam em silêncios.
E, assim, permaneço aqui,
Ferido da impotência
De não poder te alcançar.
Meus dias se alongam,
São só desespero, ânsia,
Desejo que jamais se aplaca.
Minha alma rabisca na parede da cela
O tempo infindo dos dias que se escoam,
Até que finalmente se esgota,
E se entrega ao sono
E sonha, embriagada de devaneio.

S. Quimas

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Dos teus lábios todos os beijos

Fazedora de Colar de Flores - S. Elayaraja


Dos teus lábios todos os beijos
E de tuas mãos doces carícias.
Em teu corpo tenho regozijos,
Senhora de incontáveis delícias.

Faze-me fremir, perder a razão,
Esvair de mim todos os sentidos,
Entrar em incontrolável delusão,
Louco, completamente aturdido.

Assim, tu és, assim a mim tornas,
Tamanho é o gozo que tu me dás,
Ouro com que a minha vida ornas,
Momentos únicos que só tu alindas.

És o meu maior e mágico encontro,
A melhor hora, minuto e segundo,
O tempo perfeito que perlustro,
Minha morada e todo meu mundo.

S. Quimas

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Amo-te com tão febril amor

Scott Burdick - Karla com Lenço Branco


Amo-te com tão febril amor,
Que minha alma arde em luminosas chamas,
Numa paixão qual a explosão de mil estrelas,
Galáxias que se abraçam no espaço sem fim.
Perde-se para mim o tempo,
Pois todas as minhas horas são tuas,
E nelas, meu pensamento te vive por completo.
Nem mais sei se existo eu,
Pois tu és já toda a minha existência:
O fôlego que respiro,
O pão que me alimenta,
A água que me sacia a sede;
És a aurora dos meus dias
E o ocaso de minhas noites,
Princípio e fim,
E toda a Eternidade.

S. Quimas

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A neblina escorrega pelas montanhas

Arte: Alfred Thompson Bricher


A neblina escorrega pelas montanhas
Como em um tobogã.
Vem ligeira movida pela brisa gélida.
É o Inverno que bafeja,
Marcando o tempo de sua presença.
Longas noites se passam
E os dias fugindo do frio se encurtam.
Já não há tanto calor,
Nem nas horas em que o sol se mostra.
Tudo lá fora adormece
E eu fico olhando pelo vidro da janela,
Flertando com a Primavera.

S. Quimas

domingo, 22 de junho de 2014

Canto a flor que se abre e vocifera a nossos olhos, ainda

O Filho Pródigo - Magdalena Almy


Canto a flor que se abre e vocifera a nossos olhos, ainda.
A criança que sorri e grita em suas brincadeiras, ainda.
Canto a floresta enxameada de árvores, pássaros, vida, ainda,
Os rios límpidos que serpenteiam até o mar, ainda.
Canto a todos os de boa vontade que são capazes
De se dar por completo sem pedir nada em troca, ainda.
Canto a poesia e os poetas que semeiam seus sentimentos
Nos mais belos versos, dando seu coração nas palavras, ainda.
Canto o meu canto e tudo muito mais além, ainda.
Canto... Canto uma canção sem versos e palavras,
Que é só pureza e sentimento, que brota do coração, ainda.
Porque o tempo urge. É do amor, pelo amor e só,
Que tudo surge, que toda vida se faz. Ainda.
Quem ainda não compreendeu na sua ignorância?
Ainda que eu falasse a língua de Deus... Ainda.
Ainda que o amor que eu dedicasse não fosse sincero?
Que minhas palavras e sentimentos todos fossem vãos?
Que meu próprio ser e o que sou não bastasse? Ainda...
Ainda que nada disso existisse e que promessas
De redenção não tivessem sido feitas. Ainda
Que a miséria fosse solução para o estigma de viver,
Libertação do kharma, extinção das penas. Ainda
Que tudo fosse diferente ou exatamente o mesmo,
Não seria de modo nenhum diferente do que é.
Ainda... Ainda... Ainda...
Tudo, exatamente, tudo ainda é, como sempre foi,
Um passar de horas no tempo que se percebe,
Ou não... Ainda.

S. Quimas

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Amor, não te cuide, porque o tempo passa

Idílio - William Bouguereau


Amor, não te cuide, porque o tempo passa.
O que são as horas, minutos e segundos?
A noite? O dia?
São como nesta ínfima poesia
Um desfilar de versos.
O tempo é uma progressão de imagens,
Talvez seja apenas nada mais que miragem,
Uma simples ilusão.
Nestes versos, que não te merecem,
Quero apenas te dizer:
Aquieta-te. Espera.
Dê-te uma chance de perceber
Que tudo se vai,
Mas que muita coisa persevera,
Mas que tudo, tudo mesmo,
Não passa de mera fantasia.
Ou sim... Ou não.


S. Quimas

O Trem da Vida

Estrada de Ferro - Howard Fogg


Apita a curva mesmo,
Pois por ali já há muito
Não passa trem.
Nem mesmo há mais os trilhos,
Só pedras e capim.
Mas, mesmo assim,
A curva apita
E por ela passam
Dezenas de recordações.
São os vagões da memória
Desfilando em seu cortejo.
— Piuí! Piuí!
E tudo então é coberto
Pela fumaça do tempo...

S. Quimas