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sábado, 23 de janeiro de 2016

Eu quero me matar de sorrisos

Ivan Shishkin - Manhã Enevoada

Eu quero me matar de sorrisos
E tantos deles que me alucinem.
Não quero ser nada razoável
De tudo o que não seja eu mesmo.
Não quero acordar cedo,
Mas quando acorde,
Que levante embriagado de vida.
Quero tanto
E sou apenas tão somente mero:
Tudo o que fui,
O que sou
E o que viverei.
Em mim não há razão,
Somente a embriaguez dos meus dias,
A companhia de um porvir
Imaculado como uma hóstia.
Contudo, a hóstia é ceia
E devo provar o cálice,
Finda a reunião, do meu sacrifício.
Por que chamar de paixão
Um destino de morte.
Há quem se apaixone
Por tal sinistra sorte?
Sei não. Poesia é quimera,
Coisa de estúpido,
De quem não vive a verdade,
Essa estupidez desse mundo.
Um desigual,
Onde todo o sentimento é proibido,
Onde amar não é sentido,
Mas renúncia à verdade.
Enfim... Onde tudo tem que ser
Exatamente o que é.

S. Quimas

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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Criança na Parede

Hiroshima - 1945


(Uma homenagem a todas as crianças vítimas das bombas nucleares
 lançadas em agosto de 1945 sobre o Japão.)

Hoje estou quase sem voz,
Pois não há quase nada a ser dito,
Quase nada a ser pensado,
Só há um choro mudo
Que escorre feito lama
Pela alma cheia de dor.
Lá fora o que brilha
É outro sol
E seus raios varrem a vida
Para debaixo do tapete da crueldade.
Uma voz de trovão
Berra no espaço,
Depois tudo cessa
E pela rua onde vaga o meu espírito,
Apenas a figura da criança que brinca,
Estampada pela fúria da morte atômica
Numa parede qualquer.

S. Quimas

quinta-feira, 19 de março de 2015

Sou apenas poema

Édipo e a Esfinge - Jean-Auguste Dominique Ingres


Sou apenas poema,
Esgares de renúncia e atrofia
Perante as ausências tantas
Das exigências que não cumpri.
Sou a criatura mais sórdida ainda viva,
Pois que minha boca não se cala de poesia
E todo meu sentimento é somente derrota.
Sou rasgo de relâmpago sem nuvem
Numa noite temerária,
Quando tudo que se espera é a morte,
Mas ainda assim deixo um perfume de esperança
Na prece balbuciada.
Não há fé em mim,
Só o desespero de toda a perda que me consome.
Sou atroz, negligente, um desconformado,
Um demônio de versos enganadores,
De flores que nascem e se reduzem ao pó.
Sou isso e aquilo e além.
Sou poeta. Bela vilania,
Diabo encarnado em poesia.

S. Quimas

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Há uma coisa em mim que é fumo

Renascer: Amanhecer no Pinheiral - S. Quimas


Há uma coisa em mim que é fumo,
Uma lânguida oposição ao caminhar,
Uma doçura, razão para a total inércia.
É como um pão doce na vitrine de uma padaria,
Só gula, imergir no prazer do sabor,
Fazer-me render a ele totalmente.
Não sei o que digo, pois a loucura me domina
E meus versos não são mais razoáveis.
Sou vizinho da morte
E com ela tenho boas relações,
Quase aconchego.
Nada há de mórbido em meu pensamento,
Inevitável.
A bruma que escorre pela montanha,
Como leite que vasa pela teta da vaca
É branco.
Transformo em poesia
O texto que não replico em meu viver.
Nada, absolutamente nada
Tem importância alguma.
Mistério em mim mesmo,
Construções lúdicas de meu pensamento.
Nada a se entender,
Pois os versos fluem
E não há inteligência neles.
Não procuram sobreviver,
Que sejam momentos de tempo nenhum,
Mas totalmente meus.
Que não tenham significado,
Que sejam apenas versos
De um tempo não vivido,
Mas que calem em algum coração,
Como aquela canção que se repete,
Aquele que não abandona a mente,
Quando se acorda e quando o dia se finda,
Que seja, apenas verso
E nenhuma poesia.

S. Quimas

sábado, 17 de janeiro de 2015

Não apoio ao crime

Friedrich Von Amerling (German, 1803-1887)  - Retrato da Princesa Marie Franziska Von Liechtenstein (1834-1909) com Dois Anos


Não apoio ao crime, mas JAMAIS darei carta-branca ao Estado de dispor de poder para julgar sobre a vida.
Eliminar a vida não torna ninguém apto ao convívio, é somente descarte, o mais elementar fascismo, ditadura crônica, absurdo dos absurdos.
Às vezes me aborreço pelas atitudes imensamente loucas de uns tantos, porém dar aval a quem jamais viveu o todo das circunstâncias de alguém e privar-lhe do direito à existência, não passa de conivência a um outro crime.
Pena de morte é a mais vil ação outorgada por insanos fascistas contra outro ser humano. Quem a apoia não reconhece o valor da vida e jamais refletiu sobre o que é.
Como disse, não faço jamais apologia ao crime, mas a morte não livra a sociedade de seus vícios, nem do maior: a ignorância.

S. Quimas  

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A mim, só a morte faz corte



A mim, só a morte faz corte,
Só ela se acerca de meu corpo
E se entrega feito prostituta,
Ao custo de minha vida.
Não mais como me desesperar,
Pois não há mais lágrimas a verter,
Minha alma secou
Feito um rio na estiagem.
Não há em mim
Espaço nenhum para nada,
Pois meu espírito transborda de vazios.
Não há espaço para tristeza,
Para dores, para desesperanças.
Não há espaço para a paixão,
Para o amor, ou para qualquer sentimento.
Tudo em mim está repleto de nada,
Um buraco negro sem fim.
Olho pela janela da minha alma
E o que vejo são sombras.
Foram-se as estrelas,
A brisa já não sacode as folhas
De um jardim que virou deserto.
Não há mais nuvens no céu,
Pois ele também não há.
Só vazio. Profundo e infinito
Nada.
Antes, havia a ti.
Antes, eu te havia.
Agora...
Nada.

S. Quimas

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quando toda a razão fracassa

Sir John Everett Millais - Ofélia


Quando toda a razão fracassa ainda nos resta a esperança dos sentimentos. A quem não os têm, a tranquilidade da morte.
S. Quimas

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Longe do teu abraço, falsa amiga!



Longe do teu abraço, falsa amiga!
Tu que me provocas ao teu aconchego
E me ofereces uma pretensa eternidade,
Pois que és em verdade apenas túmulo,
Rigidez de corpos sem fôlego, inanimados,
Habitação de podridão e casa de ossarias,
Fim de toda e qualquer esperança,
Fado de tudo o que vive nesse mundo.

De ti nada eu quero,
A ti eu nada peço,
Senão a distância.
Não te temo,
Sei que no fim vencerás
Sobre a minha relutância,
Mas que seja quando
Todas as minhas forças
Forem por completo esgotadas.
Pelo momento,
Mantenha-te longe de mim.

A vida não é senhora tão fácil,
É uma amante de custo bem alto,
Mas seus gozos superam em muito
As dores e os pesares que causa.
Mesmos para as dores,
As que tenha, transformo em poesia.
Se uma amante me é negligente no prazer,
Tenho a outra,
Essa mais fiel e companheira.
Não se importa a quem me entrego,
Pois em toda minha entrega está presente.
É assim a vida de poeta,
Uma constância de versos,
Gozo sem fim
E até com as piores coisas,
Ainda assim, orgasmo, êxtase.

Permanece então, Morte,
Ainda que na espreita,
Mas que estejas distante,
Que eu não encare a tua face.
Sei-me mortal,
Assim é meu corpo,
Tenho a passagem certa,
Comprada em antecipado,
Mas ainda não é hora
Da minha nau, enfim partir.

S. Quimas

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sábado, 2 de agosto de 2014

Mater Dolorosa

Assim como o lótus nasce do pântano, a vida renascerá da dor do mundo.

Homenagem às mães e crianças, vítimas da guerra judaico-palestina de 2014.

Mater Dolorosa,
Teu filho agoniza em teus rendidos braços,
Vítima da torpe indiferença
Dos adultos atrozes
Que olvidaram a infância
Que jamais de fato tiveram,
Encarcerados em suas constantes vigílias,
Sobressaltados pelos estertores das armas,
Consumidos pelas chamas de explosões.
Quem poderá de algum modo repousar
Na vizinhança do Inferno?
Quem terá real sossego
Movido de terror e agonia?
A tua casa ruiu em desespero
E levantou-se dela a poeira da desesperança.
A luz que iluminou teu dia hoje cedo
Foi a treva do teu imenso desconsolo.
Mas quem poderá consolar-te
Enquanto teu filho agoniza em teus braços?
Quem poderá repô-lo ao teu carinhoso seio?
Trazer-lhe à vida que agora se míngua
Diante de teus olhos lacrimosos?
Quem?
Tua face desesperadamente contorcida
É retrato da dor toda sem dimensão
Que te consome por completo a alma,
Que derrama teu incerto fôlego
Em grito desesperado.
Em teus braços o silêncio,
A morte que cava incansável
O túmulo dos anjos desterrados.
Nessa hora não há deuses possíveis,
Nenhum conforto à tua dor;
Há a todas, mas não a esta única.
Um minuto é milhares de horas,
O tempo se alonga
Como a lâmina que sangra o teu coração.
A dor é viva, pungente,
E rouba-te a sanidade.

Um leve movimento
Arrasta os lábios inocentes,
Um último que o tinge de roxo,
É quase um sorriso,
Um sorriso que se perdeu
Na Eternidade do teu abraço,
Do teu doce amor.

Tudo está consumado.

S. Quimas

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Nada há tão completamente em mim

O Anjo da Morte - Vernet Horace


Nada há tão completamente em mim,
Quanto esta imensa tristeza que assombra
Os recônditos da morada de minha alma.
Nada é tão absurdamente torturante,
Tão perversamente insistente,
Tão afeiçoado à minha melancólica vida.
De mim não se aparta em nenhum momento,
Mesmo no meu minguado sorriso,
Em qualquer mínimo esboço de felicidade,
No mais miserável prazer que possa sentir.
Sempre está lá, sempre uma mancha,
Um zumbido, um pérfido embaraço,
Roubando-me toda a esperança,
Causando-me absoluto desalento.
As horas se arrastam em trevas
E meus olhos se enceguecem
Em meio à enclausurante escuridão.
Sigo, assim, regurgitando o fel dos meus dias,
Ruminando o meu doloroso desespero,
Acorrentado à minha obstinada impotência,
Até que a morte, apiedada, então me sorria,
E assim, por fim, compassiva me liberte.
E tomando-me com delicadeza às mãos,
Dance alegremente comigo uma valsa
No baile da Eternidade.

S. Quimas