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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Criança na Parede

Hiroshima - 1945


(Uma homenagem a todas as crianças vítimas das bombas nucleares
 lançadas em agosto de 1945 sobre o Japão.)

Hoje estou quase sem voz,
Pois não há quase nada a ser dito,
Quase nada a ser pensado,
Só há um choro mudo
Que escorre feito lama
Pela alma cheia de dor.
Lá fora o que brilha
É outro sol
E seus raios varrem a vida
Para debaixo do tapete da crueldade.
Uma voz de trovão
Berra no espaço,
Depois tudo cessa
E pela rua onde vaga o meu espírito,
Apenas a figura da criança que brinca,
Estampada pela fúria da morte atômica
Numa parede qualquer.

S. Quimas

sábado, 25 de julho de 2015

Canto a canção do mundo



Canto a canção do mundo,
A canção da dor de quem grita em meio às trevas.
O clamor dos renegados,
Dos espíritos exilados de estrelas distantes,
Muito além do pensamento;
Da visão que se cega à nossa miserável condição,
À toda a agonia a que nos submetemos em nosso degredo.
Nasceu-me a Luz e minha voz não se esgota no clamor
E hei de estender minhas mãos enquanto uma alma houver
Na escuridão traiçoeira pedindo ajuda.
Sou aquele que permanece fiel até o fim das suas forças,
Até que se esgote um fio de vida.
Sou a aurora não vista, servo de todos,
Um daqueles que vieram para abraçar àqueles de boa vontade.
Nunca fui um abençoado, mas abençoado sempre com Vida,
Vida que está acima da vida, de todas as causas menores.
Não sou existente, sou impermanente,
Lacaio de toda a esperança que jamais se rende.
Sou poeta desse mundo tão desigual, tão vil, tão falacioso.
Sou sua voz e testemunha de sua pequenez,
De todas as suas mais profundas misérias e iniquidades.
Mas, também sou aquele que ilumina,
Que do amor fala, não como inatingível, porém vivido,
Palpável como a brisa que roça arrepiando a pele.
Do amor eu falo, contudo não por sua constância em tê-lo,
Porém de tê-lo em verdade profundamente sentido.
Não preciso de testemunhas que corroborem com meu dito,
O que sinto pertence a mim, e a tudo com que compartilho.
Em minha poesia eu não falo mentiras — até omito para que o seu
Tremendo peso não seja como o soco de um boxeador.
Não há inverdades nas minhas palavras,
Só há total sentimento, só há o grito que grito, nada mais.
Não há imitação de estilos, ou muita concisão em minhas palavras.
Minha poesia é minha. Nunca tive ídolos.
Não perco tempo entregando minha alma
Para aquilo que é passageiro.
Sou parte de mim mesmo e da minha totalidade.
Não preciso de deuses que não são aquilo que eu seja em mim mesmo.
Tenho dito coisas que o mundo queria dizer, mas não tinha virilidade.
Não porque seja eu Homem, mas porque havia de dizer e mais nada.
Outras digo e que não soam bem ao ouvido de uns.
O que posso fazer? Se é que isso me ocupa de algum modo.
O que tenho a dizer, digo. Exatamente, mais nada.
Não para aliviar a carga imensa de minha alma,
Mas porque tenho que dizer. Uma imposição do meu espírito.
Por que faço poesia? Sei lá. Vem... Só isso.
Nem sei se o que faço é verdadeiramente poesia.
É esse jorro, uma profusão de palavras que me tomam por completo.
Não espere que eu tenha domínio sobre isso,
Sou o meio, não a causa, e não o fim.
Você sabe o que é sentir o peso da carga do mundo sobre si?
Não? Então seja poeta e saberá...
Saberá nos mais pequenos e ínfimos detalhes.
Terás momentos de beleza incomensurável
E outros de agonia dilacerante.
Assim é o poeta, alguém que vive no limbo.
Acho que vou terminar este poema,
Sinto-me esgotado.
Não pelo esforço de escrevê-lo. Amo poetizar.
Contudo, por que devo fazê-lo?
Para que todas as minhas palavras
Em uma só coisa se justifique:
Amor, amar, simplesmente.
Nada mais a alegar,
Só a lágrima que escorre pela minha face...

S. Quimas

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Estou tão estéril de inspiração

Deserto de Gobi


Estou tão estéril de inspiração,
Que bebo aos goles desertos
De tudo que seja plano, sem sentimento,
Despido de lágrimas ou sorrisos,
Que não me toque e não faça bater
Um pouco mais o meu coração.
O que digo é tão sem mim,
Que o que disse antes
Avaliam-me estar por completo drogado.
Minhas palavras tão vazias
E assim por tão sê-las,
Já não escancaram poesia alguma.
São assim taciturnas e lamurientas
Em toda a fragilidade de suas significações.
Todos meus versos são mal ditos,
Vísceras que apodrecem
Espalhadas no caminho do Inferno
E que nem os abutres
Ousam, por sábios, tocar.
Nada destrói mais do que o apetite
Cismado pela obsessão de escrever,
De traçar letras e compulsivamente
A tê-las em palavras
Que formam frases
E traduzem pensamentos e intenções.
Enquanto me consome o mundo,
O consumo eu, esse intragável alimento,
Sabor sempre o mesmo,
De variedade das mesmas coisas.
Uma hora minha voz se cala...
Em outra? Poesia.

S. Quimas

domingo, 29 de junho de 2014

Não me creia poeta

Arte: Juan Cossio


Não me creia poeta,
Só psicografo o meu destino.
Ele fala assim tão intenso em minha alma,
Que dificilmente não o daria voz.
Quantas vidas vivi independente do teu ceticismo?
Muitas, não sei quantas. Vivo todas do mundo.
Queria só a minha.
Não sei se a vida é dor exatamente,
Mas a sinto, assim, completamente.
Onde a alegria? Os viços da primavera?
Sei lá... Não sei de mais nada.
A vida? Estrada, caminho...
E eu sozinho e é coisa demasiada.

S. Quimas

terça-feira, 24 de junho de 2014

Em vão eu busco a poesia perfeita

Paisagem da Vestfália


Em vão eu busco a poesia perfeita,
Aquela que enlaçará o teu coração
Nessa toda paixão que por ti sinto.
Minha alma clama a tua presença,
Pois já minhas horas são todas tuas
E a tua recordação, o meu pensamento.
Se não podes ouvir o som da minha voz,
Então, que o acaso faça com que leias
Estes versos de amor que para ti fiz.
Quem sabe? Possas assim acreditar
Que o amor, por mais distante seja,
É ponte que liga uma a outra estrada
Onde poderemos juntos caminhar.
E, assim, lá no fim do caminho,
Aconchegar-te-ei em meus braços
E dar-te-ei, com carinho, um beijo.

S. Quimas