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quinta-feira, 19 de março de 2015

Sou apenas poema

Édipo e a Esfinge - Jean-Auguste Dominique Ingres


Sou apenas poema,
Esgares de renúncia e atrofia
Perante as ausências tantas
Das exigências que não cumpri.
Sou a criatura mais sórdida ainda viva,
Pois que minha boca não se cala de poesia
E todo meu sentimento é somente derrota.
Sou rasgo de relâmpago sem nuvem
Numa noite temerária,
Quando tudo que se espera é a morte,
Mas ainda assim deixo um perfume de esperança
Na prece balbuciada.
Não há fé em mim,
Só o desespero de toda a perda que me consome.
Sou atroz, negligente, um desconformado,
Um demônio de versos enganadores,
De flores que nascem e se reduzem ao pó.
Sou isso e aquilo e além.
Sou poeta. Bela vilania,
Diabo encarnado em poesia.

S. Quimas

terça-feira, 15 de julho de 2014

Quisera que tua boca sobre a minha pousasse

Sri Krishna e Sri Hadharani

À minha Radharani

Quisera que tua boca sobre a minha pousasse,
Como pousa, na praia, a espuma do mar.
Mansamente, rebrilhando à luz do sol,
Feito espelho gracioso,
Abraçando os grãos de areia.
Quisera que tu fosses apenas como o mar:
Azul límpido, por vezes tempestuoso,
Mas fluir de ondas sempre presente.
Quisera eternamente e tão somente agora,
Um instante, um segundo, um lapso,
Quisera...
E por tanto querer,
Já não te tenho. Que fazer?
Seguir pensando que um dia possa,
Ainda que assim, sem resposta,
Resolver a questão que consome todo meu ser:
Quem há de me acordar
Amanhã de manhã?
Tu? Não sei!
Mas quisera fosse.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em mim ainda resta muito de ti, senão tudo

Arte: Alexey Gorovin


Em mim ainda resta muito de ti, senão tudo...
Na taça ainda não lavada a marca da tua boca,
Doces lábios que eu quero tanto beijar, contudo
Já não posso e minha esperança faz-se pouca.

Não creio mais que um dia tu voltarás para mim,
Que abrirei a porta e o teu perfume delicado
Retorne impregnando todo o ar à volta, enfim,
Que perdoes a mim e a todo o meu triste pecado.

Eu sei, não há perdão possível, não vindo de ti.
Fiz-te sofrer, mas não foi por desejar fazê-lo,
Mais dor do que tu, ainda maior que a tua senti,
Pequei muito mais por adorar-te e pelo zelo,

Do que por qualquer muito grave e indigna ofensa,
Que em qualquer momento possa ter cometido
E, hoje, colho do amor que dei a indiferença,
O teu silêncio que me sufoca e faz perdido.

S. Quimas

terça-feira, 17 de junho de 2014

Não te escandalize, amor, com meus versos obscenos

Arte: Iva Troj


Não te escandalize, amor, com meus versos obscenos.
Como falar de ti sem paixão, sem todo esse desejo imenso
De possuir-te a cada hora? De envolver-te em meus braços
E beijar-te a boca, como quem sorve o doce de uma fruta madura?
Quando olho os teus seios túrgidos de mamilos tão delicados, fervo.
São tão perfeitos, que não há como evitar tal encantamento.
Teus quadris de curvas bem traçadas são estradas
Que me levam aos portões do Paraíso
E quando bailam em meu leito, fazem-me explodir de prazer.
Tuas pernas são colunas que nem o mais primoroso Carrara
Poderia representar a sedosidade e a beleza harmoniosa.
Nada se compara a ti, meu terno e imortal amor,
Nem teu reflexo é tão belo quanto tu és em ti mesma.
Tu és a amante mais completa e tens a virginal pureza dos anjos.
Não te escandalize, amor, com meus versos obscenos,
Pois são palavras sentidas que transbordam do meu coração.

S. Quimas