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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Artista e a Normalidade

Vincent Van Gogh - Autorretrato


Tentar enquadrar um artista em uma condição de "normalidade" é como tentar agarrar o vento com as mãos.
Na infância, os pais castigam a fim de submetê-lo; não dá certo. Na adolescência, os amigos tentam convencer, outros adultos dão conselhos, mas também fracassam. Na fase adulta, casado, é a vez da mulher querer botar rédeas para a total frustração dela. Na velhice, acham-no caduco e excêntrico. Depois que morre, escrevem biografias sobre ele, que rendem fortunas aos seus biógrafos, pois todos os leitores acham sua vida fantástica. E é, pois não dá bola para o ti-ti-ti ao seu redor e segue realizando o que pensa ser o mais correto para si.

S. Quimas

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sábado, 2 de agosto de 2014

Mater Dolorosa

Assim como o lótus nasce do pântano, a vida renascerá da dor do mundo.

Homenagem às mães e crianças, vítimas da guerra judaico-palestina de 2014.

Mater Dolorosa,
Teu filho agoniza em teus rendidos braços,
Vítima da torpe indiferença
Dos adultos atrozes
Que olvidaram a infância
Que jamais de fato tiveram,
Encarcerados em suas constantes vigílias,
Sobressaltados pelos estertores das armas,
Consumidos pelas chamas de explosões.
Quem poderá de algum modo repousar
Na vizinhança do Inferno?
Quem terá real sossego
Movido de terror e agonia?
A tua casa ruiu em desespero
E levantou-se dela a poeira da desesperança.
A luz que iluminou teu dia hoje cedo
Foi a treva do teu imenso desconsolo.
Mas quem poderá consolar-te
Enquanto teu filho agoniza em teus braços?
Quem poderá repô-lo ao teu carinhoso seio?
Trazer-lhe à vida que agora se míngua
Diante de teus olhos lacrimosos?
Quem?
Tua face desesperadamente contorcida
É retrato da dor toda sem dimensão
Que te consome por completo a alma,
Que derrama teu incerto fôlego
Em grito desesperado.
Em teus braços o silêncio,
A morte que cava incansável
O túmulo dos anjos desterrados.
Nessa hora não há deuses possíveis,
Nenhum conforto à tua dor;
Há a todas, mas não a esta única.
Um minuto é milhares de horas,
O tempo se alonga
Como a lâmina que sangra o teu coração.
A dor é viva, pungente,
E rouba-te a sanidade.

Um leve movimento
Arrasta os lábios inocentes,
Um último que o tinge de roxo,
É quase um sorriso,
Um sorriso que se perdeu
Na Eternidade do teu abraço,
Do teu doce amor.

Tudo está consumado.

S. Quimas

domingo, 29 de junho de 2014

Eu fico aqui compondo poesias para quê?

O Grito da Independência - Pedro Américo


Eu fico aqui compondo poesias para quê?
Elas livram minha alma, me acalmam?
A poesia só agrava todos os meus dias.
Nem sei se os meus versos sejam poesia.
A única certeza que tenho é nenhuma.
Minha vida é uma eterna bruma,
Um nevoeiro que destrói todas as minhas forças.
Mas, gozo com os versos que faço.
Como pode alguém ter prazer com versos
De tristeza e solidão? Sei lá, gozo.
Um dia, sei lá, numa Ave Maria qualquer,
Os fiéis os recitem.
Isso é coisa de um demônio, mas não sou?
Imagina a cena. Imagina se possível...
Nada é possível e possível é tudo,
Basta que se movam as peças
Nesse xadrez da vida de modo adequado.
Contudo, a minha incompetência é grande
E tremenda é a minha indiferença a isso.
Basta-me a arte, o canto, ou porcaria nenhuma.
A poesia, a poesia, ela sempre.
Desde a infância ela me domina.
Há os grandes, sou o menor dentre todos,
Mas enquanto tiver garganta, eu grito.
Pois o meu canto é forte,
Voz do Infinito!

S. Quimas

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Infância

Arte: Eugenio Zampighi


A infância se mascara de tragédia e cresce,
Perde seu frescor e sua espontaneidade,
Permite-se ser mutilada em sua inocência
E troca sua pureza por roupas de marca.
Já não mais se exibe por sua graça natural,
Mas pela joia material buscando a inveja.
Endurece o coração na ganância do ter,
Esquece-se dos valores mais profundos
Do apenas viver desfrutando cada momento.
Perde a magia, pois pára então de sonhar,
Acreditando que sonhos são tolas fantasias
Que jamais se tornarão um dia possíveis.
Trancafia-se no calabouço de suas frustrações
E reprime tudo que não tenha um fim prático.
Assim a infância vai esfalecendo até morrer,
Até que seu cadáver seja só uma lembrança,
Gravada em fotos desbotadas de um álbum
Sepultado no fundo de uma gaveta qualquer.


S. Quimas