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quinta-feira, 19 de março de 2015

Sou apenas poema

Édipo e a Esfinge - Jean-Auguste Dominique Ingres


Sou apenas poema,
Esgares de renúncia e atrofia
Perante as ausências tantas
Das exigências que não cumpri.
Sou a criatura mais sórdida ainda viva,
Pois que minha boca não se cala de poesia
E todo meu sentimento é somente derrota.
Sou rasgo de relâmpago sem nuvem
Numa noite temerária,
Quando tudo que se espera é a morte,
Mas ainda assim deixo um perfume de esperança
Na prece balbuciada.
Não há fé em mim,
Só o desespero de toda a perda que me consome.
Sou atroz, negligente, um desconformado,
Um demônio de versos enganadores,
De flores que nascem e se reduzem ao pó.
Sou isso e aquilo e além.
Sou poeta. Bela vilania,
Diabo encarnado em poesia.

S. Quimas

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quero arrebanhar nesse mundo

Flores de jasmim


Quero arrebanhar nesse mundo
Um bando de tubarões
Que regurgitem do mar flores.
Que elas estejam nas praias
Desde a madrugada
E que as receba o primeiro
Que lá estiver.
E que a louca abundância disso
Se perpetue em um dia inteiro
E ninguém saiba por quê.
Que lhes sintam o perfume,
Que se emocionem com sua beleza,
Enfim, que lhes cative,
Que seja por segundos, a alma.
O mundo precisa mais de loucura,
Não a insanidade destrutiva,
Mas a que liberta.
A que liberta de preconceito,
De coisas pré-concebidas,
De falas já a tanto ditas
E que transformaram, e amor nada.
Precisamos de mais abraços e menos porradas,
Precisamos de mais lágrimas,
Mas não daquelas que vêm de sofrimentos,
Mas de nos emocionarmos com flores,
Com bichinhos, com palavras de carinho,
E, principalmente, gestos.
Nossas necessidades são imensas
E jamais serão supridas por “foras”,
Porém por tudo que nos é interiorizado.
A vida segue, eu sigo.
Resta-nos saber
Por que caminhamos.

S. Quimas

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Quando você pousar suas mãos sobre meu corpo

Sri Krishna e Radharani


À minha Radharani

Quando você pousar suas mãos sobre meu corpo,
Não perjure suas promessas,
Não evite o meu prazer,
Seja apenas esse tudo que me diz ser, regala-me.
Não que em mim não haja crenças em maravilhas.
Mas, que coisas fantásticas desejo?
Carinho, afeto?
Simplesmente, você.
Sua entrega,
Não a renúncia de si mesma,
Mas a totalidade sua.
Quero, desejo sua carne nua
E também seu espírito.
Quero conversas em noites e dias que nunca findem,
Uma eternidade, nem que seja ela um minuto.
Quero a vida a seu lado,
Mesmo o obscuro que há em si,
Pois também não somos sombras?
Mas que sua sombra me conforte num dia quente de verão,
Que sejas como uma árvore em meu caminho,
Que me alimente e me proteja do sol,
Que eu possa repousar aos seus pés
E eu me lembre do perfume de suas flores.
Quero a você assim...
Uma estrela, ou apenas uma fagulha que seja,
No anoitecer dos meus dias.

S. Quimas

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em mim ainda resta muito de ti, senão tudo

Arte: Alexey Gorovin


Em mim ainda resta muito de ti, senão tudo...
Na taça ainda não lavada a marca da tua boca,
Doces lábios que eu quero tanto beijar, contudo
Já não posso e minha esperança faz-se pouca.

Não creio mais que um dia tu voltarás para mim,
Que abrirei a porta e o teu perfume delicado
Retorne impregnando todo o ar à volta, enfim,
Que perdoes a mim e a todo o meu triste pecado.

Eu sei, não há perdão possível, não vindo de ti.
Fiz-te sofrer, mas não foi por desejar fazê-lo,
Mais dor do que tu, ainda maior que a tua senti,
Pequei muito mais por adorar-te e pelo zelo,

Do que por qualquer muito grave e indigna ofensa,
Que em qualquer momento possa ter cometido
E, hoje, colho do amor que dei a indiferença,
O teu silêncio que me sufoca e faz perdido.

S. Quimas

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Silêncio e a lembrança do teu perfume

Arte: Istvan Sandorfi


Silêncio e a lembrança do teu perfume...
É tudo o que restou.
A única coisa que fala, berra, grita, além,
E me consome,
É a saudade tua.
A saudade da tua voz,
Das juras de amor,
Dos sonetos de Florbela.
A saudade dos teus lábios,
Do teu corpo suado
Abandonado entre os lençóis,
Dos teus olhos perdidos,
Tomada de êxtase,
Imersa em prazer e gozo.
É tudo o que restou.
O silêncio, o teu perfume
E essa saudade que teima
Em jamais me abandonar.

S. Quimas