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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Estou tão estéril de inspiração

Deserto de Gobi


Estou tão estéril de inspiração,
Que bebo aos goles desertos
De tudo que seja plano, sem sentimento,
Despido de lágrimas ou sorrisos,
Que não me toque e não faça bater
Um pouco mais o meu coração.
O que digo é tão sem mim,
Que o que disse antes
Avaliam-me estar por completo drogado.
Minhas palavras tão vazias
E assim por tão sê-las,
Já não escancaram poesia alguma.
São assim taciturnas e lamurientas
Em toda a fragilidade de suas significações.
Todos meus versos são mal ditos,
Vísceras que apodrecem
Espalhadas no caminho do Inferno
E que nem os abutres
Ousam, por sábios, tocar.
Nada destrói mais do que o apetite
Cismado pela obsessão de escrever,
De traçar letras e compulsivamente
A tê-las em palavras
Que formam frases
E traduzem pensamentos e intenções.
Enquanto me consome o mundo,
O consumo eu, esse intragável alimento,
Sabor sempre o mesmo,
De variedade das mesmas coisas.
Uma hora minha voz se cala...
Em outra? Poesia.

S. Quimas

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Filosofia

Calvin e Haroldo


Tenho amigos filósofos e eruditos, mas não pensam nas pessoas que saem na madrugada com a marmita na bolsa.
Eles têm teorias estranhas ao dia a dia desta gente. Eu lamento.
Para o Inferno a filosofia se não presta para elevar.
Boa filosofia é aquela que se assimila e transforma, que alça a uma condição superior. Toda outra não é ética. A filosofia se esqueceu disso e só se faz um brinquedo de palavras, a mais pura erudição.
Mente brilhante é aquela que transforma a si mesmo e reverbera em amor ao mundo e o traz a um nível superior.
Não há desculpa à preguiça, mas menos à prepotência de uma intelectualidade vazia, que se mostra tipicamente arrogante.
A genialidade está em sobreviver num sistema que mata. O Universo é estrela que engole outra, galáxia que traga outra. O Todo é voraz. As pessoas só se preocupam com a rede que saiu do ar. Falo dos classe e mídia, não dos famintos e deserdados, dos reais aflitos.
Canso a todo mundo. Sou assim, um cansativo.
Levem-me suavemente nas costas, antes que o mundo que ignorem depositem seu peso.

S. Quimas

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Páginas em Branco

Pintura Chinesa


Páginas em branco... Incontáveis.
Que ânsia é essa de extravasar
A alma que transbordava
Só silêncios?
E, também, na mudez de palavras
Sem sentido algum,
A menor coerência.
Em, também, em pensamento nenhum,
Só sossego e infinita contemplação.
Por que me assanhas poesia?
Por que assim me dominas?
Acaso sou para-raios do mundo?
Médium de todas as criaturas
E de todas as suas vicissitudes?
Acaso também não mereço calma
E não possa minha alma
Apenas existir?
Existir e tão somente seguir
O curso incerto das minhas horas?
Teu jorro é como inundação em minha mente
E não posso evitar que me alagues por completo
Todos os meus sentidos, razão e sensibilidade.
Não faço versos como um matemático
Que persegue um teorema impossível,
Faço-os todos porque tu me impões fazê-los,
Porque tu me dominas e me submetes.
Tu és o Céu e o Inferno,
Deleite e tragédia,
Tudo ao mesmo tempo.
É o sofrer na alegria
E o gozo na angústia.
Eu já nem sei mais de mim
Tão completamente entregue estou a ti.
Sou hoje só sentimento e palavras,
Um amontoado incomensurável delas
E tudo o que me fazem sentir.
Já não sei absolutamente de mais nada
E a razão clama que reflita,
Mas estou por ti escravizado e sigo.
Página após página, linha após linha,
Palavra após palavra.
Sei lá muitas vezes o que escrevo,
Só sei quando o ponto é final.
Tu me incorporas e me levas ao devaneio
E, sem meditação, meu ser
Rompe a barreira da sanidade.
Eu não sei o que canta em mim,
Ou através,
Mas o canto é maravilhoso à minha alma
E deliro e sigo escrevendo.
Ah, que melodia maravilhosa ouvem meus ouvidos!
Acho que enlouqueço.
Pessoas normais não fazem isso.
Simplesmente pessoas normais vivem.
Ou apenas existem, como disse Oscar Wilde.
Em nada me preocupo por elas,
Pois a própria vida é decisão que cabe a cada um.
Eu sou pelos sonhos, a arte e todo o devaneio.
Minha loucura é uma janela escancarada
Que a todos possibilita ver o interior
Da morada do meu espírito.
Mas, não é assim que deve ser?
Não é a nossa alma o que importa revelar?
Há tanta dissimulação no mundo
Que até vomito em certas horas.
Não por nojo,
Mas pela carga de mal que me nauseia,
Contida em toda ação afetada.
De fingimentos jamais vivi...
Possa eu ter amenizado,
Possa eu ter ter evitado ferir,
Mas falsidade, jamais.
Tenho me dado como sou desde sempre,
Esse mínimo que sou,
Mas por completo.
Muitos me odeiam.
Possa ser que alguns me amem.
Não sei o que se passa no interior de cada um
— E sei.
Não me importa.
Enquanto houver no mundo,
Janela ou porta,
Hei de entrar e sair.
Que estejam abertas,
Senão as arrombarei!

S. Quimas

sábado, 2 de agosto de 2014

Mater Dolorosa

Assim como o lótus nasce do pântano, a vida renascerá da dor do mundo.

Homenagem às mães e crianças, vítimas da guerra judaico-palestina de 2014.

Mater Dolorosa,
Teu filho agoniza em teus rendidos braços,
Vítima da torpe indiferença
Dos adultos atrozes
Que olvidaram a infância
Que jamais de fato tiveram,
Encarcerados em suas constantes vigílias,
Sobressaltados pelos estertores das armas,
Consumidos pelas chamas de explosões.
Quem poderá de algum modo repousar
Na vizinhança do Inferno?
Quem terá real sossego
Movido de terror e agonia?
A tua casa ruiu em desespero
E levantou-se dela a poeira da desesperança.
A luz que iluminou teu dia hoje cedo
Foi a treva do teu imenso desconsolo.
Mas quem poderá consolar-te
Enquanto teu filho agoniza em teus braços?
Quem poderá repô-lo ao teu carinhoso seio?
Trazer-lhe à vida que agora se míngua
Diante de teus olhos lacrimosos?
Quem?
Tua face desesperadamente contorcida
É retrato da dor toda sem dimensão
Que te consome por completo a alma,
Que derrama teu incerto fôlego
Em grito desesperado.
Em teus braços o silêncio,
A morte que cava incansável
O túmulo dos anjos desterrados.
Nessa hora não há deuses possíveis,
Nenhum conforto à tua dor;
Há a todas, mas não a esta única.
Um minuto é milhares de horas,
O tempo se alonga
Como a lâmina que sangra o teu coração.
A dor é viva, pungente,
E rouba-te a sanidade.

Um leve movimento
Arrasta os lábios inocentes,
Um último que o tinge de roxo,
É quase um sorriso,
Um sorriso que se perdeu
Na Eternidade do teu abraço,
Do teu doce amor.

Tudo está consumado.

S. Quimas

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Biografia

Estopa - S. Quimas


Tem sido assim em toda a minha vida,
Razão e sonho transbordando em palavras.
Poesia, poesia, poesia... Que fazer?
Versos e muitos outros.
Não há senão isso. Versos.
O que é ser poeta,
Senão entregar-se ao delírio?
Tenho sido arrimo
Do Céu e do Inferno de minha alma.
Não sei o quanto mais de um
Do que do outro,
Só sei que meus dias escoam
E cada vez faz menos sentido
Toda a história que ouvi
Desde a minha infância
Sobre Paraíso ou Condenação.
Já os tive aqui o suficiente.
Quando eu me for,
Se é que o outro lado tem estradas onde se caminhe,
Se é que há algo além de limbo,
Vou vivido de muita coisa.

Não me tornei um sábio com as coisas que vivi,
Mas me tornei, sim,
Muito mais consciente da minha ignorância.
Não digo isso por orgulho,
Se o confesso é por constatação.
Que orgulho haveria em se saber ignorante?
Ou mesmo, que orgulho há em se ser sábio
E enxergar toda a sujeira do mundo?
E seja eu um ou outro,
Não sou eu quem faz o mundo girar.
E o mundo giraria mesmo que fosse um cubo,
Pois o Universo onde escorrega
Não é uma ladeira coberta por paralelepípedos,
Mas um grande vazio cheio de coisas,
Muitas das quais nem imagino.

Vou seguindo a minha vida,
Rabiscando versos,
Pois assim é, eu sou.
E deixo que Deus,
Feito criança travessa,
Continue brincando comigo
De escrever minha insana
Biografia.

S. Quimas

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nada é mais lógico do que a falta de sentido



Nada é mais lógico do que a falta de sentido. Nesse mundo de superficialidades e de se arrotar caviar enquanto se comeu sardinha, tudo está certo. Ser não é a questão, jamais. Ter é tudo.
Quem liga para o santo? Quem quer luz? A meia-sombra em um motel trepando com uma amante é mais convidativa. Não que o gozo seja um pecado, mas...
Nada é mais perfeito nesse mundo que a sua insânia: guerra, violência, ganância, egoísmo, indiferença, dor, e toda a espécie de males e flagelos.
Que fazer?
O inferno não foi feito para anjos.
Contudo, ainda há uma esperança. Acordar!

S. Quimas

Obrigado por sua  visita. Visite a minha página de arte no Facebook e conheça a minha pintura.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Existem duas oportunidades na vida

O Barco de Dante - Eugène Delacroix

Existem duas oportunidades na vida:
Viver e não viver.
E o que é viver?
Sei lá, vivo apenas cada instante,
E não sei se vivo realmente.
Na certeza, na dúvida, permaneço assim.
É a merda da minha existência.
Poupem-me palavras os pudicos,
Não vos escrevo.
Escrevo para quem tem consciência do Inferno,
Pois o Inferno é aqui.
Simples assim, mais nada.
A alma emerge para a vida
E aí é triturada por uma montanha de crenças.
Crê que tudo possa ser
E depois a levam a não crer mais.
Falácia.
Muitos leem as minhas aberrações
E tomam a elas por poesia.
Não são. São gritos.
Minha poesia fala de tudo.
Do amor, da natureza...
Incorporo todo o ser.
O que vem a minha alma
É o regurgitar do mundo,
Aquilo que faz parte da sua miséria.
Contudo, também a Luz.
Porque há Luz, sim... Luz.
Não precisamos de lâmpadas
Para nos iluminar,
Precisamos de olhos.

S. Quimas