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domingo, 21 de setembro de 2014

Hoje não há poesia

Laelia Purpurata


Hoje não há poesia,
Não tem sonho, devaneio.
Hoje simplesmente o tempo passa
E faz escárnio da vida,
Aquela mínima, sem sentimentos
E ilusões, sem alma e delírios.
Hoje, hoje não há espírito
E o fôlego só mantém o corpo.
Quem sabe, amanhã haverá,
Mas hoje, hoje não.
Hoje os versos fogem, parecem coriscos,
Não há tempo para versos,
Não há para qualquer mínima rima.
Hoje? Hoje não há.
Hoje é um dia seco e estéril,
Como um deserto,
Um amontoado de areias e pedras
Crestado pelo sol abrasador
Que a tudo cresta e consome.
Assim é a luz, assim esse dia.
Um dia de surdez a qualquer inspiração,
Um nada fazer e apenas deixar-se estar,
Um tempo de nada,
Onde a areia escorre pela ampulheta
E a tempo algum marca,
Pois mesmo o tempo não deixa marcas,
Nada muda,
Tudo é como um lago, espelho perfeito
Sem que o vento lhe agite a superfície,
Sem nenhuma transformação.
É assim, nada mais.
Hoje não há poesia
E não sei realmente se amanhã haverá.
Sei de agora, desse ínfimo e exato momento,
Sei que poesia não há.
Penso na face escura da lua
E ao mesmo tempo, que me importa isso...
Nada.
Só sei que não há poesia agora,
Mas, quem sabe,
Poesia haverá.
Não sei quando,
Mas talvez minha alma seja laçada
Pelo raio de uma estrela qualquer
E em mim volte inspiração
E eu apenas declare em um verso
A grandeza de tudo isso,
Da vida e de toda visão,
Que me consuma na loucura,
No sonho e em todo devaneio,
E assim me dê,
E assim me vá.
E assim, apenas,
Me imole em poesia.

S. Quimas

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ângelus


Angelus - Jean François Millet


O Sol vai mergulhando no fio do horizonte
E a canção serena se levanta enchendo o ar.
É doce a melodia, quase um murmúrio,
Entoada em uníssono pelo coro angelical.
Enquanto o céu se enche de rubras nuvens
E vai morrendo o dia com lenta mansidão,
Toda a Natureza se prepara para as trevas
Que vem com a noite que vai nascendo,
Fazendo, lá bem distante, surgir aqui-e-ali
Salpicos acanhados de pontos luminosos.
Então, tudo se aquieta por um momento,
E em prece a Natureza enfim adormece,
Mas rápido acorda, pois a escuridão chega
E com ela vem a lua, fogosa e bela amante,
Que a envolve em mil beijos até o amanhecer.

S. Quimas


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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Minha casa sonha com um jardim à beira do lago

Lago - Vasily Dmitrievich Polenov


Minha casa sonha com um jardim à beira do lago.
Não é um jardim qualquer,
Ele é feito de estrelas e luares
E nele passeiam caminhos de amores,
Que carinhosamente vem abraçar o espelho d’água.

No sonho de minha casa
Cabem todos os por ela amados,
Que vêm dançar na largueza imensa de seu jardim.
E bailam, bailam, bailam
Num balé sem fim,
Rodopiando por entre os canteiros estrelados,
Enquanto a lua toca uma melodia mágica
Na sua harpa de mil cordas.

Quando todos partem,
Minha casa adormece
E de novo sonha
Um sonho dentro de um sonho,
Que jamais termina.
E segue assim sonhando
Por toda a eternidade.

S. Quimas

sábado, 14 de junho de 2014

A lua toca o coração da noite

Luar sobre o Rio - Edward Williams


A lua toca o coração da noite
E varre com sua luz as estrelas do céu.
Seu fulgor é intenso
E seus mistérios incontáveis.
A natureza envolvida por seu manto luminoso,
Agita-se, freme, acordando a tudo.
Só as criaturas enamoradas do dia
Não respondem ao seu doce chamado,
Abandonando-se a sedução dos sonhos.
No lago, anuros cantam em coro
Uma canção de amor
Numa língua indecifrável.
Insetos voam para lá e para cá
E alguns acendem luzes,
Sinalizando às fêmeas
A hora de se amarem.
Animais passeiam pelo espaço,
Estalando, silvando, volejando
Por entre os galhos das árvores.
Outros rastejam ou caminham
Por entre a relva espraiada de luz.
A noite a tudo convida,
Mas nem tudo responde
Aos seus muitos encantamentos.
Mas a lua,
Sua eterna namorada,
Nem sempre fiel, a envolve
Em um abraço que tem o tamanho do mundo,
E o sentimento de todos os amantes.

S. Quimas

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Já não há mais auroras em meus dias

Arte: Serge Marshennikov


Já não há mais auroras em meus dias.
Somente a noite habita minha alma,
Pois tu, que me eras a luz, foste embora.
Perdi-te num sonho, um atroz pesadelo,
Nas brumas dos tempos, milênios idos.
Agora em nada meu espírito se compraz
E só tenho a noite por companheira.
Não há mais o cantar dos pássaros
Logo cedo, mal vindo o nascente,
Não mais a brisa fria invadindo
A janela teimosa no não se abrir.
Tudo isso passou. Perdeu-se de mim.
Agora, só a escuridão sem lua
E a dor lancinante me acompanham.
Fazem-me a corte, se lançam em sedução.
Minha alma se entrega ao desespero
E em meu rosto só as lágrimas da tua ausência.
Quanta dor poderá um homem sofrer?
Quanto desespero poderá suportar?
Quanto? Quanto? Quanto?... Quanto?
Nada em mim é tão certo quanto o amor
Que por ti sempre dediquei.
Nada... Nem saber-me vivo é tão certo,
Pois o viver, com certeza, é impreciso,
Tão incerto como a chegada ao destino.
Minhas horas se vão, todas, a cada segundo
Em que, teimoso, o relógio faz marcar.
A cada badalada vejo-me desta vida
Cada vez mais distante, menos presente,
Cada vez mais próximo da partida.
Minha mente divaga, não há mais sanidade
Em qualquer pensamento meu.
Só há a ti. Tu, presença constante,
Dor imensa que não consigo evitar.
Tu és como um grito que nunca se cala,
Presença abominável que me assombra,
Mas que é tudo o que mais amo
E, assim, me desespero...
E onde tu estarás? A que tempo tu pertences?

S. Quimas

Site de Serge Marshennikov: http://serge-marshennikov.tumblr.com/