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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Todas as nuvens

Arte: Jose Luiz Munhoz


Todas as nuvens
Que me chegam a meu céu
São imensas auroras de tingidos rubros e alaranjados.
Já não são todos anjos,
Esses me abandonam.
Querubins de renúncia,
Já não me suportam.
Serei vil?
Não. Poeta.
Encarno em mim Deus
E o todo outro o profano.
Sou aconchego
E total abandono.
Sou rima,
Mais ainda sem sê-lo, desafio.
Sou como rio
Que corre para o mar.
Sou o sulco da terra
Vazada por todas as águas.
Mar, terra e ar...
Não sei de mim,
Nada sei,
Somente amar.
Não a mim,
Posso fundo,
Eternamente a mim de mim moribundo.
Beijo jamais dado,
Aquele que eternamente arrebata.
Virgem de mim mesmo,
Pois jamais completo
E assim tão repleto de tanto,
Que transformo a minha dor e pranto,
Nessa torpe harmonia,
Que chamo, se merece,
Poesia.

S. Quimas


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Quero beijar em todas as bocas e dizer

Helen Keller, exemplo para toda a humanidade.


Quero beijar em todas as bocas e dizer:
O que sonhas?
Pois todos os sonhos são assim, devaneios.
Quero abraçar a todos
E não dizer nada, Só abraçar.
Vamos olhar o céu ainda que não enxergamos,
Pois levantemos nossas cabeças.
Há estrume em excesso no mundo,
Nos faz acreditar que fomos derrotados,
Mas não somos... Não, não somos.
Falhamos em muito,
Mas temos as lágrimas de ver algo que nos comove.
Assim somos únicos,
Nunca desacreditemos disto:
Do valor de uma simples... Lágrima...

S. Quimas

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Páginas em Branco

Pintura Chinesa


Páginas em branco... Incontáveis.
Que ânsia é essa de extravasar
A alma que transbordava
Só silêncios?
E, também, na mudez de palavras
Sem sentido algum,
A menor coerência.
Em, também, em pensamento nenhum,
Só sossego e infinita contemplação.
Por que me assanhas poesia?
Por que assim me dominas?
Acaso sou para-raios do mundo?
Médium de todas as criaturas
E de todas as suas vicissitudes?
Acaso também não mereço calma
E não possa minha alma
Apenas existir?
Existir e tão somente seguir
O curso incerto das minhas horas?
Teu jorro é como inundação em minha mente
E não posso evitar que me alagues por completo
Todos os meus sentidos, razão e sensibilidade.
Não faço versos como um matemático
Que persegue um teorema impossível,
Faço-os todos porque tu me impões fazê-los,
Porque tu me dominas e me submetes.
Tu és o Céu e o Inferno,
Deleite e tragédia,
Tudo ao mesmo tempo.
É o sofrer na alegria
E o gozo na angústia.
Eu já nem sei mais de mim
Tão completamente entregue estou a ti.
Sou hoje só sentimento e palavras,
Um amontoado incomensurável delas
E tudo o que me fazem sentir.
Já não sei absolutamente de mais nada
E a razão clama que reflita,
Mas estou por ti escravizado e sigo.
Página após página, linha após linha,
Palavra após palavra.
Sei lá muitas vezes o que escrevo,
Só sei quando o ponto é final.
Tu me incorporas e me levas ao devaneio
E, sem meditação, meu ser
Rompe a barreira da sanidade.
Eu não sei o que canta em mim,
Ou através,
Mas o canto é maravilhoso à minha alma
E deliro e sigo escrevendo.
Ah, que melodia maravilhosa ouvem meus ouvidos!
Acho que enlouqueço.
Pessoas normais não fazem isso.
Simplesmente pessoas normais vivem.
Ou apenas existem, como disse Oscar Wilde.
Em nada me preocupo por elas,
Pois a própria vida é decisão que cabe a cada um.
Eu sou pelos sonhos, a arte e todo o devaneio.
Minha loucura é uma janela escancarada
Que a todos possibilita ver o interior
Da morada do meu espírito.
Mas, não é assim que deve ser?
Não é a nossa alma o que importa revelar?
Há tanta dissimulação no mundo
Que até vomito em certas horas.
Não por nojo,
Mas pela carga de mal que me nauseia,
Contida em toda ação afetada.
De fingimentos jamais vivi...
Possa eu ter amenizado,
Possa eu ter ter evitado ferir,
Mas falsidade, jamais.
Tenho me dado como sou desde sempre,
Esse mínimo que sou,
Mas por completo.
Muitos me odeiam.
Possa ser que alguns me amem.
Não sei o que se passa no interior de cada um
— E sei.
Não me importa.
Enquanto houver no mundo,
Janela ou porta,
Hei de entrar e sair.
Que estejam abertas,
Senão as arrombarei!

S. Quimas

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Biografia

Estopa - S. Quimas


Tem sido assim em toda a minha vida,
Razão e sonho transbordando em palavras.
Poesia, poesia, poesia... Que fazer?
Versos e muitos outros.
Não há senão isso. Versos.
O que é ser poeta,
Senão entregar-se ao delírio?
Tenho sido arrimo
Do Céu e do Inferno de minha alma.
Não sei o quanto mais de um
Do que do outro,
Só sei que meus dias escoam
E cada vez faz menos sentido
Toda a história que ouvi
Desde a minha infância
Sobre Paraíso ou Condenação.
Já os tive aqui o suficiente.
Quando eu me for,
Se é que o outro lado tem estradas onde se caminhe,
Se é que há algo além de limbo,
Vou vivido de muita coisa.

Não me tornei um sábio com as coisas que vivi,
Mas me tornei, sim,
Muito mais consciente da minha ignorância.
Não digo isso por orgulho,
Se o confesso é por constatação.
Que orgulho haveria em se saber ignorante?
Ou mesmo, que orgulho há em se ser sábio
E enxergar toda a sujeira do mundo?
E seja eu um ou outro,
Não sou eu quem faz o mundo girar.
E o mundo giraria mesmo que fosse um cubo,
Pois o Universo onde escorrega
Não é uma ladeira coberta por paralelepípedos,
Mas um grande vazio cheio de coisas,
Muitas das quais nem imagino.

Vou seguindo a minha vida,
Rabiscando versos,
Pois assim é, eu sou.
E deixo que Deus,
Feito criança travessa,
Continue brincando comigo
De escrever minha insana
Biografia.

S. Quimas

terça-feira, 1 de julho de 2014

Amando assim com tão imenso amor

Ed Tadiello - Anjo Radiante


Amando assim com tão imenso amor,
Minh’alma se enleva além do véu,
Vendo do Paraíso o seu fulgor
E anjos abrindo as portas do Céu.

Vejo a ti, meu amor, casta e bela,
Beleza resplandecente, querubim
De asas de luz e dourada auréola,
De pele suave e lisa tal cetim.

Curvo-me então à tua figura,
Tomado de poderosa emoção,
Duma paixão tão desmedida e pura,

Que de todo me toma o coração
E, assim, tão profundamente imerso,
Já não sou mais eu, mas todo Universo.

S. Quimas

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ângelus


Angelus - Jean François Millet


O Sol vai mergulhando no fio do horizonte
E a canção serena se levanta enchendo o ar.
É doce a melodia, quase um murmúrio,
Entoada em uníssono pelo coro angelical.
Enquanto o céu se enche de rubras nuvens
E vai morrendo o dia com lenta mansidão,
Toda a Natureza se prepara para as trevas
Que vem com a noite que vai nascendo,
Fazendo, lá bem distante, surgir aqui-e-ali
Salpicos acanhados de pontos luminosos.
Então, tudo se aquieta por um momento,
E em prece a Natureza enfim adormece,
Mas rápido acorda, pois a escuridão chega
E com ela vem a lua, fogosa e bela amante,
Que a envolve em mil beijos até o amanhecer.

S. Quimas


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sábado, 14 de junho de 2014

A lua toca o coração da noite

Luar sobre o Rio - Edward Williams


A lua toca o coração da noite
E varre com sua luz as estrelas do céu.
Seu fulgor é intenso
E seus mistérios incontáveis.
A natureza envolvida por seu manto luminoso,
Agita-se, freme, acordando a tudo.
Só as criaturas enamoradas do dia
Não respondem ao seu doce chamado,
Abandonando-se a sedução dos sonhos.
No lago, anuros cantam em coro
Uma canção de amor
Numa língua indecifrável.
Insetos voam para lá e para cá
E alguns acendem luzes,
Sinalizando às fêmeas
A hora de se amarem.
Animais passeiam pelo espaço,
Estalando, silvando, volejando
Por entre os galhos das árvores.
Outros rastejam ou caminham
Por entre a relva espraiada de luz.
A noite a tudo convida,
Mas nem tudo responde
Aos seus muitos encantamentos.
Mas a lua,
Sua eterna namorada,
Nem sempre fiel, a envolve
Em um abraço que tem o tamanho do mundo,
E o sentimento de todos os amantes.

S. Quimas

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Anjo de mãos escarnadas

O Mendigo Cego - Jules Bastien-Lepage


Anjo de mãos escarnadas,
Revira o lixo em busca de pão.
A vida lhe é feroz açoite,
Seja dia, seja à noite,
Só a dor sem compaixão.
Ah, meu anjo, te aquieta!
Já não estás sozinho,
Tens aqui o teu irmão poeta,
Que te estende ora a mão
Em meio ao teu tortuoso caminho.
Se não posso, por distante estar,
Afagar-te a cabeça descabelada,
Posso em meus versos por ti orar:
— Senhor, Tu que criaste do Nada
Ao Universo inteiro e ao homem,
Tua obra mais transtornada,
Faze sobre ele um lúmen,
Escancare-lhe os olhos para que veja,
Quanta injustiça no desamparo
De qualquer pequenino que seja
A um destino tão cruel e bárbaro.
Faze com que todo anjo execrado
Possa ser por Teu amor infinito
Um dia da miséria resgatado,
E se caso algum der um grito,
Que seja de plena alegria,
Pela felicidade de ser criança,
De poder viver toda fantasia,
De alimentar em si a esperança.
Enfim, Papai do Céu, meu Deus,
Não deixa mais que se perca nenhum
Dos pequeninos filhos Teus,
Mas se assim se fizer com algum,
Mesmo assim, protege-o da vilania,
Dos adultos malditos e atrozes.
Faze-lhes da omissa escuridão, dia,
E da sua mudez, o som de mil vozes.
Amém!

S. Quimas

Hei de sonhar-te no sonho mais completo

Repetição - Olga Suvorova


Hei de sonhar-te no sonho mais completo,
Onde outra vez possamos nos encontrar.
E sob o céu do mais fundo azul e neto,
Enlaçar-te em meus braços e te beijar.

Tocarei teus seios com toda doçura,
Enlevando-te, fazendo delirar.
Minha amada imortal, sublime e pura,
Assim buscando o êxtase vou te amar,

Por todo o dia, por toda a noite, sempre...
Então nossos corpos se farão um só,
E ouviremos dos anjos a voz e o cistre,

E jamais tornaremos à morte, ao pó,
Pois a Eternidade será resgatada
E nossa alma pra sempre abençoada.

S. Quimas