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domingo, 19 de abril de 2015

Tem coisa e outra

Andrew Wyeth


Tem coisa e outra,
Gente vive de fé,
Que não passa de coisa,
Onde não pisa seu pé.
Tem coisa e devaneio,
Melhor a que me veio,
Inspiração oportuna,
Meu caixão, minha urna.
Meu corpo que se enterre,
Antes que se desfaça,
Assim esse personagem
Já não viverá a farsa.
Será poesia e lembrança,
Poética e retórica,
Palavras sem fim.
Que me amou, amou a mim,
Não o produto de minha arte,
Mas minhas loucuras,
Não o céu de meus versos
Tingido de nuvens e suas brancuras.
Amou a mim somente,
Também às minhas trevas.
Meus momentos nenhuns
E todos os outros.
Quem sabe de mim sou eu.
Outros também sabem,
Porém de algo.
Aqui agora, a tempestade desaba.
Que sabe, parta eu daqui,
Desse mundo nessa hora,
Sem nenhuma mágoa?
Meus versos são torpor,
Pura embriaguez.
Falo vezes de amor,
Amor um tanto,
De resto a minha alegria
Somente é pranto.
Há beleza, sublimidade,
Mas muito mais peso
De um lado que equidade.
Não é que reclame,
Não há mérito por um infame
Que ainda faça poesia.

S. Quimas

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Não busco mais a esperança

Sir John Everett Millais - Ofélia


Não busco mais a esperança,
Pois ela a mim não passa de um fardo inútil
Que carregava em minha alma perdida.
Do que adianta alimentar ilusões,
Se o fado de minha vida é não te ter jamais?
Toda essa angústia que tortura o meu ser,
Todo o vazio da tua ausência,
Tudo isso só me furta a paz
E me põe em constante pranto.
Só o que faz a tua lembrança
É me torturar e me desesperar,
É tornar minha poesia triste,
Um canto lamentoso
Que não encontra ouvidos, nem eco,
Pois só eu sei o que sinto,
Só eu sei medir a queda no abismo
Que é te ter distante de mim.
Fico então assim, derramando em meus versos
As lágrimas que já não choram mais meus olhos.
Esses secaram por hora,
Não há mais luz em seu brilho,
Pois brilho neles não há mais,
Só a escuridão do meu espírito,
Que por tanto te amar
Desgraçou-se pela Eternidade.
Que venha me abraçar a morte,
Que ela venha célere,
Que me retire desse mundo
Que de todo perdeu o encanto.
Não quero mais sofrer aqui tanto,
Quero consumir-me em infinito sono,
Apagar de mim toda a lembrança
E diluir o imenso desejo de ti
No limbo do esquecimento.

S. Quimas

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Lá fora a chuva cai e eu me lembro de ti

Arte: Paul Lasaine


Lá fora a chuva cai e eu me lembro de ti.
Não é só a chuva, mas tudo te traz à minha lembrança:
A brisa tépida despenteando os meus cabelos,
O cheiro das flores que colho pelo caminho em uma manhã qualquer,
Aquela criança no parque que outro dia me sorriu
E me causou a mais profunda emoção — as crianças sempre causam —,
O som festivo das maritacas, que chegam sempre à mesma hora
Para se alimentarem das sementes das palmeiras no jardim,
A música romântica que toca em um rádio em alguma casa da vizinhança,
Enfim, a ânsia que tortura o meu corpo buscando o teu,
Minha boca que deseja teu beijo, que é como um sonho
Que se sonha num abraço mesmo desperto.
Recordo-te e parece que te vejo ainda deitada nua em meu leito,
Tão bela, tão sedutora, razão de todo o meu desejo.
Enquanto cai a chuva, eu permaneço aqui em silêncio,
No mais completo devaneio.
Quase posso te tocar com minhas mãos, tão real tu te fazes para mim,
Porém um trovão freme as janelas de meu quarto
E, assim, desperto. Só vejo à minha volta as paredes e os móveis.
Levanto-me. Estou com sede.
Quando caminho em direção ao jarro d’água, tropeço em algo.
É teu retrato que mandei emoldurar.
O vidro se partiu em pedaços,
Feito qual, quando tu foste embora,
O meu coração.

S. Quimas

Site de Paul Lasaine: http://lasaineportfolio.blogspot.com.es/

domingo, 8 de junho de 2014

Eu não posso te esquecer

A Mulher Velada - Rafaello Sanzio


Eu não posso te esquecer,
Pois tu não és mera lembrança,
Mas imorredoura presença.
Ainda que não haja esperança,
Futuro, devir,
És assim:
A minha alma por completo.

S. Quimas