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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Coisas que há em mim choram



Coisas que há em mim choram,
Outras sangram.
Umas são devaneios,
Outras pesadelos.
Feridas me recobrem a alma
Feito a pele de um leproso
E já não caminho mais,
Pois minhas pernas
Já não me sustentam
E os meus pés escarnados
Não se prestam ao andar.
Resta-me vaguear
Pela escuridão de meu espírito,
Sem bússola, sem estrela a me guiar.
Tudo em mim é fenecer,
Agudeza, aspereza, dor.
A alegria se esvaiu
Na imprecisão das horas,
Corroída pela mó das desventuras.
De mim só restam os versos
Que brotam do coração em andrajos,
Cantado pela voz rouca
Da garganta estrangulada pela melancolia.
Não quero que ninguém os leia,
Não quero que se esgotem com o meu mal.
Não quero.
Quero somente me dissolver,
Como a fumaça que sobe do cigarro

E me desencontrar no Infinito.

S. Quimas

terça-feira, 15 de julho de 2014

Eu não sou mais nada



Eu não sou mais nada
E ainda assim sou tudo,
Pois o poeta incorpora
Até a não existência.
O poeta é vão, pérfido,
Aliciante, alucinante
Como uma droga.
Seus versos são calabouços,
Prisões sem nós,
É tudo o que a alma sente,
O todo e o nada,
A busca e o encontro,
Confronto...
Beco, estrada.
O poeta é apenas
O imponderável,
Tudo o que nos resta
De mais imensurável,
Um sem-limites.
Um encantador de palavras,
Pura irreverência.
Brinca com a dor
E chora a alegria.
O poeta é tudo,
O que, real, se sente
E até mesmo aquilo
Que se gostaria.


S. Quimas

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Nada é mais doce que o teu belo sorriso

Retrato de Madame Mole-Raymond - Elizabeth Louise Vigee Le Brun

À minha Hadharani.

Nada é mais doce que o teu belo sorriso,
Quanto encantamento e magia produz,
Quanto me cativa e de todo me seduz,
Faz-me perder a fala, rouba-me o siso.

É luz do sol lá no horizonte se levantando,
Iluminando a face do céu, a aurora vinda.
É prazer, uma alegria que jamais se finda
E que a toda a dor e trevas vai dissipando.

Assim é teu sorriso, de beleza sem igual,
Mármore translúcido em berço carmim,
Irradiação de Luz que jamais terá um fim,
Uma dádiva divina de uma alma angelical.

S. Quimas

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Nunca busquei a felicidade

Carroça de Feno - John Constable


Nunca busquei a felicidade...
Sei lá que coisa é essa,
Que de tão abstrata, valerá o esforço?
Procurei viver cada momento,
Não como se fosse o último,
Mas como a possibilidade
De muitos outros, um eterno renascer.
Procurei ser reto,
Quase nunca o pude.
Até os rios fazem suas curvas
Por entre os morros,
Em direção ao mar.
Só não fui avaro no amor que dediquei,
Nisso abundei até a exaustão.
E se me dei tão por completo,
Mais do que me dei, a tudo a que me entreguei,
Pois amar é mais do que se dar,
É se diluir completamente em algo.
Por não buscar a felicidade,
Acho que sou mais feliz que muitos outros,
Porque acabo sendo feliz por nada.
Minha alegria vem das coisas mais banais,
Até mesmo das pequenas tristezas
Que transformo em versos.
Vem da janela quando olho o mar, ou as montanhas,
Ou os campos que se perdem nos horizontes.
Vem do cachorro do vizinho
E do seu olhar alegre ao me ver passar.
Vem daquele dente faltoso no sorriso
Da criança com quem cruzo ao ir buscar o pão.
Eu dou também valor às coisas grandiosas,
Com as quais a minha alma se embevece:
O Universo à minha volta é uma delas.
Mas, grande valor àquilo, que por nada, me faz curvar.
Como aquela florzinha perdida no caminho,
Me provocando por entre as pedras do pavimento
E gritando aos meus olhos: sou também beleza e vida!
Há algo de metafórico na minha visão do mundo,
Que não encontra a mínima justeza
Na vida que as pessoas normais levam.
Talvez a minha loucura o impeça,
Não há como eu me compatibilizar
Com a insensibilidade de quem não se curva
A nenhuma flor perdida no caminho.
Tenho sido um proscrito por causa disso,
Mas vou reter o impulso de me lamentar,
Pelo menos aqui, pelo menos por hora.
Uma vez ouvi um ditado,
Mas cujas palavras já não me lembro,
E, por quase sempre não me lembrar de qualquer um,
Resolvi eu mesmo penetrar só nos mistérios do mundo.
E, assim, me descobri tão perdido,
Que me achei em poesia.

S. Quimas